Capítulo 1: A CIDADE PROIBIDA

snakeandramona

A Cidade dos Deuses era realmente como as histórias contavam, Snake constatou ao avistá-la no horizonte: grande, estranha e assustadora.
Era um amontoado de ruinas de grandes edifícios de pedra e metal, coberta por uma névoa densa que lhe dava um aspecto de miragem.
Haviam advertido Snake de que nunca, jamais, deveria ir até lá. Os que lá entraram nunca mais voltaram ou, se conseguiram retornar, enlouqueceram e morreram pouco tempo depois. Era um lugar proibido e em qualquer lugar de Thanisya corriam lendas sobre as coisas estranhas que lá haviam.
Mas Snake era um caçador de tesouros e uma coisa ele aprendera em anos de profissão: se um lugar é perigoso, deve guardar algo valioso.
Ele havia alugado um barco para a missão e comprara uma série de coisas que poderiam ser úteis. Com uma mochila nas costas, espada em punho e curiosidade transbordando de todos os poros, ele lentamente adentrou a cidade em ruínas, sem fazer a menor ideia do que lhe esperava.
Era escuro no interior daquelas ruínas. O ar era parado e frio, a água era quase um espelho e refletia as construções semidestruídas dando à cena um aspecto de pesadelo. O silêncio era interrompido apenas pelo som do barco cortando a água e pelas batidas do coração do caçador de tesouros que, sem um mapa e sem muita ideia do que procurar, seguia em linha reta na esperança de que não se perdesse no caminho.
Não havia como saber o que havia ali. Era um lugar proibido e os poucos relatos eram absurdos demais para se acreditar. Falavam de monstros feitos de um metal que as espadas não podiam sequer arranhar, criaturas que disparavam estranhas flechas de luz que derretiam até o aço e outros horrores do tipo. Não dava para acreditar em tudo que se dizia por aí. Era apenas uma cidade em ruínas, nada mais. Nada nem ninguém morava ali há pelo menos mil anos – ou mais.
Snake checou seu relógio de bolso. Já estava navegando no interior da cidade há uma hora e até agora não vira nada de interessante. Decidiu achar um lugar para aportar e investigar a parte seca, pois certamente se houvesse algo a achar, seria lá que acharia.
Não demorou até achar um degrau de pedra que emergia da água calma e abria para uma grande extensão de terra seca. Ali os edifícios pareciam melhor conservados – ou menos destruídos. Sem onde amarrar uma corda, Snake recorreu à sua mochila em busca de algo que pudesse servir de âncora e, após muito procurar, acabou encontrando.
Era um pergaminho mágico – um daqueles encantamentos descartáveis que custavam barato e eram tão úteis quanto práticos. Pelas runas, era clara sua função: um feitiço de gelo de nível dois, muito mais eficiente do que o de nível um. Serviria para a ocasião.
Desenrolando cuidadosamente a folha, Snake leu as palavras mágicas e nem bem terminou de pronunciar a última e o efeito se manifestou, e a água ao redor do barco num raio de cinco metros se congelou, transformando-se numa sólida e resplandecente superfície perolada.
– Isso vai bastar por algumas horas. – disse ele em voz baixa – Até eu voltar o gelo já vai estar quase derretido e será fácil sair com o barco e ir embora.
O gelo era escorregadio, mas os sapatos de Snake estavam preparados com óleos especiais que os faziam não perder a aderência – caçadores de tesouros tinham que andar sempre preparados – e, portanto, foi fácil ir até o degrau de pedra, escalá-lo e, já em terra firme, começar a verdadeira exploração.
E ele andou em linha reta – o Guia Prático do Aventureiro Iniciante dizia que se você está em terreno desconhecido, a linha reta é o percurso mais seguro e com a maior chance de um retorno garantido. A escuridão espreitava de rachaduras, portões, janelas e outras aberturas, becos e avenidas estendiam-se para ambos os lados, mas era difícil ver muito longe por causa da névoa. O silêncio continuava profundo como sempre, mas algo dizia a Snake que essa calma era apenas aparente.
E era, de fato, aparente. Cerca de vinte minutos de caminhada depois e um som estridente fez os pêlos da nuca do caçador de tesouros se arrepiarem. Num movimento rápido, sacou a espada e se preparou para fosse o que fosse que havia emitido o som.
Olhou para cima bem a tempo de ver o perigo se aproximando. Uma enorme… coisa de pedra caía diretamente sobre ele. Provavelmente era uma parede desmoronando ou coisa assim, o tempo foi suficiente para saltar para adiante e evitar a morte certa.
Após um estrondo e uma nuvem de poeira, Snake – antes mesmo de dar graças por ter escapado vivo daquilo – se deu conta de que o caminho de volta agora estava totalmente bloqueado.
– Droga! – exclamou ele – Desgraças sempre vêm aos pares! Primeiro eu quase morro e depois meu caminho de volta é bloqueado por esse monte de pedras!
Não havia tempo para lamentar. Snake tinha como filosofia sempre ir em frente e foi o que fez. Aquele lugar não era tão calmo quanto parecia e melhor seria ficar mais alerta.
E começou a olhar para todos os lados e para cima enquanto andava, com a espada em punho, pronto para tudo. Agora não seria pego de surpresa por mais nada. Iria ficar com os olhos abertos dali por diante, para evitar que algo de pior acontecesse.
Uma hora se passou e mais nada aconteceu.
Seguiu em frente olhando para lá e para cá e nada. Os edifícios agora eram tão altos que mal dava para ver o céu, eles adentravam a neblina e desapareciam, e de repente uma sensação de enclausuramento recaiu sobre o jovem Snake, que agora via-se imerso naquela cidade proibida sem sequer uma pista do que procurar e com a noção clara de que era tarde demais para dar meia-volta.
Nunca desistira antes, não desistiria agora. Nunca entrara numa caverna, ruína ou masmorra sem retornar com algo valioso nas mãos e não seria essa a primeira vez.
Cansado de caminhar a esmo, resolveu procurar um lugar para descansar. Havia trazido provisões para três dias e podia fazer um lanche e dormir um pouco dada a calma do ambiente naquele momento.
Tirando do bolso sua tenda automática, Snake montou seu acampamento improvisado numa reentrância entre dois prédios. Para evitar qualquer incômodo, sacou um dos três pergaminhos de “Não Perturbe” que havia comprado para essa finalidade e recitou seu conteúdo. Agora o acampamento seria invisível para qualquer um que passasse perto e qualquer som que ele produzisse seria magicamente abafado, tornando o lugar totalmente seguro contra invasores e curiosos em geral.
Dentro da tenda, pegou um pedaço de bolo da mochila e comeu rapidamente. Queria dormir um pouco, pois contando o tempo que levara desde a costa até a Cidade dos Deuses, o tempo dentro dela de barco e a pé, já estava há tempo demais sem pregar os olhos.
O sono veio rápido, mas não sem sonhos.
Snake se viu em meio a uma escuridão profunda, perambulando por corredores invisíveis, perdido. E então uma voz invadiu-lhe a mente, uma voz que pedia por ajuda.
– Se alguém puder me ouvir, me ajude. Esta é minha última tentativa, logo minhas forças irão se esgotar. Então, por favor, se alguém puder ouvir isso, me ajude.
Isso fez Snake acordar de um salto. A voz era real demais para ser parte do sonho, apesar de ele ter certeza de que da mesma forma que os sons de dentro do perímetro do feitiço “Não Perturbe” eram abafados os sons de fora também eram bastante reduzidos e a voz era nítida demais para ter soado através da barreira mágica.
Que diabos era aquilo?
Uma alucinação? Um sonho esquisito? Ou um perdido de ajuda legítimo de uma donzela em apuros?
Snake odiava pensar nessa última opção, pois o Guia Prático do Aventureiro Amador, que era o norte de todo caçador de tesouros dizia que pedidos de ajuda de donzelas em apuros jamais deviam ser ignorados.
Ele não sabia ao certo por que não devia ignorar um pedido de ajuda se sua função ali não era a de ajudar ninguém além de si próprio, msa ouvira muitas histórias sobre outros como ele que por dar ouvidos a pedidos de ajuda em lugares desconhecidos acabaram caindo em armadilhas que lhes custaram braços, pernas e, em alguns casos, a vida.
– Dane-se! – exclamou ele, dissolvendo o “Não Perturbe” e recolhendo a tenda automática – Já estou aqui, nem tenho como voltar por onde vim e ainda estou de mãos abanando. Se o que ouvi foi um pedido de ajuda, certamente vou ouvir de novo ou, caso não ouça, terei certeza de que foi só um sonho e não precisarei mais me preocupar com isso.
Havia, porém, algo diferente no ar.
A névoa continuava cobrindo tudo e tudo continuava silencioso, mas era agora como se Snake tivesse um mapa mental da cidade – ou ao menos era o que parecia.
De onde aquelas informações vieram?
Dobre à direita. Vire à esquerda. Suba as escadas. Salte o abismo. Entre pelo corredor, saia pelo outro lado. Dobre à direita e à esquerda de novo, entre. Saia.
De onde vinham aquelas instruções?
Será que puseram algo no bolo que ele comera? Ele nem sabia o quanto dormira. Checou o relógio enquanto corria. Não dormira nem duas horas. Em pouco mais de três horas iria escurecer de verdade e aí ele precisaria de luz… mas não importava.
Suba por ali, entre aqui, desça, suba, vire à esquerda, dobre a esquina, atravesse os arcos de pedra, saia pelo outro lado e…
Maldição! O que era aquilo?
Snake parou.
Diante dele havia o que parecia ser uma grande praça. Ou melhor, não uma praça. Um espaço aberto entre os edifícios, onde antes deviam haver edifícios. Algo havia acontecido ali, algo que reduziu aquela parte da cidade – uma área circular de uns cem metros – a poeira. E bem no centro, um objeto destacava-se: um sólido geométrico perfeito feito de alguma coisa similar a vidro esfumaçado, liso e reluzente. E ali a névoa não era tão densa, permitindo que alguns raios do sol da tarde tocassem o chão.
Era surreal. O silêncio, o chão cheio de poeira, a coisa retangular no centro da praça arruinada, os raios do sol misturados às sombras dos grandes edifícios… será que ele ainda estava dormindo e não percebera?
– Finalmente você veio, Snake! – era a mesma voz do sonho, mas agora ele estava acordado – Está pronto para me tirar daqui ou quer que eu dê um tempo para você decidir se está dormindo ou acordado?
A voz soava em sua mente, mas sua atenção de repente se focou no grande retângulo reluzente no centro daquele espaço. Aproximando-se para examiná-lo mais de perto, ele conseguiu divisar o que havia dentro e teria desmaiado se não estivesse acostumado a ter emoções fortes.
– Uma… uma… MULHER????
Dentro do que parecia ser um caixão de vidro estava uma bela jovem de cabelos azuis. Ela parecia dormir profundamente e sua beleza era desconcertante. Mas o que diabos uma mulher estaria fazendo ali, naquele lugar e dentro daquela coisa?
– Já terminou de se fazer perguntas, Snake? – a voz soou de novo – Eu não tenho muito tempo. – a voz soou na mente dele e agora ele percebeu que não poderia vir de outra fonte que não a jovem enclausurada no esquife a sua frente.
Como a tiraria dali? Aquele material não se parecia com nada que já havia visto, apesar de brilhar como vidro ou gelo, tinha uma aura de solidez inabalável, não parecia possível quebrá-lo ou sequer arranhá-lo.
– Use sua espada, Snake! – a voz soou impaciente.
E assim ele fez. Brandindo a espada com as duas mãos, saltou para trás e investiu contra o bloco translúcido com o ideal de parti-lo ao meio (mas tomando o cuidado de não partir a garota ao meio no processo) e desferiu um golpe de cima para baixo que deixou um rastro azulaado no ar, fruto de toda a energia interior que Snake havia canalizado para aquele único golpe.
Nada aconteceu. E para piorar, ao reparar em sua espada após o ataque, Snake percebeu que a lâmina estava trincada – inútil.
– Ferro não é suficiente, Snake. – a voz disse – Você vai precisar de algo mais forte para poder me tirar daqui.
Antes, porém, que Snake pudesse pensar em que metal seria esse, um som de passos pesados ecoou atrás dele.
– Há 500 anos um jovem cheio de coragem veio aqui tentar me salvar, Snake. – a voz soou na mente dele – Teria conseguido se não fosse por AQUILO!”
O tom de urgência fez Snake arregalou os olhos para ver melhor. Do escuro de entre dois edifícios, uma coisa enorme emergiu. Era dourada, parecia um ser humano, mas era muito maior. Devia ter uns três metros de altura e pelo som que fazia, devia pesar mais que cem homens. Sua presença enchia o ar, seus olhos eram vermelhos e na mão uma espada enorme, que parecia emitir luz própria.
– Que diabos é isso? – Snake perguntou, sem esperança de ouvir resposta.
– Armas de guerra. – a voz soou em sua mente – Os arautos da destruição desse mundo num tempo muito antes do seu tempo.
– E como eu derrubo isso? – ele perguntou.
– Se existisse resposta a essa pergunta, Snake. – a voz soou de novo em sua mente, agora num tom triste – Essa cidade não estaria em ruínas agora.
– Então quer dizer que eu vou morrer? – indagou ele, enquanto a coisa marchava em direção a ele com a espada erguida.
A distância entre Snake e o gigante metálico era agora de quarenta ou cinquenta metros. A coisa parecia não ter pressa, girava a espada vagarosamente como que exibindo-a e seus olhos faiscavam num vermelho maligno conforme esquadrinhavam o jovem desarmado com cara de pavor diante dela.
Snake, porém, não tinha o hábito de sair correndo. Ele bem sabia que poderia simplesmente correr para o outro lado, esquecer a garota e o monstro e tentar dar um jeito de voltar ao seu barco e dar o fora – fugir era sempre uma alternativa fácil apesar de nunca ser a primeira que ele considerasse – mas algo o mantinha ali.
Não sabia se eram os olhos azuis da garota congelada naquele cubo transparente ou se era seu espírito de aventura ou o simples fato de não ter nada a perder que o travava com os dois pés no chão, impávido como se fosse capaz de enfrentar seu inimigo, coisa que ele não era. E essa posição impassível explodiu num único e decisivo grito de corajosa imprudência que ecoou na grande praça vazia e pareceu reverberar nos prédios em ruínas ao redor como um trovão:
– Pode vir! Eu tenho algo guardado aqui para você!
A coisa parou. Pareceu ponderar por dois minutos. Era, certamente, a primeira vez em muito tempo que alguém a desafiava. Aquilo parecia surpreendê-la, mas não o bastante para fazê-la recuar – apenas o bastante para fazê-la parar, acender com mais ferocidade o vermelho dos olhos e iniciar uma corrida em largas passadas em direção do caçador de tesouros.
Era preciso pensar rápido. Snake enfiou a mão na mochila e vasculhou por meio segundo em busca de mais um de seus pergaminhos mágicos. Retirou um, torcendo para não ser um inútil “Não Perturbe” e, sem pensar desenrolou-o e recitou seu conteúdo sem nem olhar o rótulo.
Imediatamente o efeito se fez sentir. Faíscas como pequenas estrelas brilharam ao redor de Snake e ele sentiu a agilidade redobrar em seus pés. “Maravilha!” – pensou ele – “Um feitiço de ‘Velocidade Aumentada’ vem bem a calhar.”
Com os pés mal tocando o chão, ele começou a correr em círculos pela praça, mantendo sempre distância da coisa metálica que agora se detivera e começara a olhar em volta sem entender o que estava acontecendo.
Enquanto corria, Snake pensava em como iria se livrar da coisa para poder depois soltar a garota de sua prisão de algum modo – se tivesse sucesso, é claro. Ele tinha ainda alguns pergaminhos na mochila, dois ele sabia que eram aquelas inúteis mágicas de ocultar barracas e os outros eram feitiços comuns, nada de muito especial. Ele precisaria de mais que mágica para vencer. Não estava lutando contra piratas, bandidos, animais selvagens ou fantasmas, estava lutando contra uma coisa desconhecida e que parecia não estar disposta a tomar chá com biscoitos com ele.
Enquanto Snake corria, a coisa maquinava alguma forma de atingi-lo. Sem que o caçador de tessouros notasse, os olhos do gigante brilharam com mais força ainda e dois feixes de luz vermelha cortaram o ar, errando o alvo por pouco e esmigalhando um muro ao atingi-lo numa explosão branca como o sol do meio-dia.
– As flechas de luz! – Snake disse para si mesmo enquanto continuava correndo pela praça sem parar – Então não era apenas uma bobagem dita por um maluco, era REAL!
E se era real ele deveria ter cuidado, pois aquelas coisas perfuravam até armaduras de aço – e ele estava usando apenas uma camisa, pois odiava o peso e o desconforto de armaduras de qualquer tipo. Com mais aquele problema em mente, Snake decidiu parar de correr e enfrentar a coisa do jeito que sabia melhor: improvisando.
– Ei, monstrão! – gritou ele saltando agilmente sobre uma marquise de um grande edifício na margem da praça – Por que não tenta atirar em mim! Olhe só! Estou paradinho aqui!
A coisa obedeceu. O feixe de luz cortou o ar e Snake teve apenas alguns instantes para sair do caminho e outros poucos para se afastar do desmoronamento que veio a seguir. O edifício inteiro tremeu e veio abaixo inundando toda a praça em poeira branca opaca. Era isso! Snake tinha agora um plano para deter a coisa, mas precisava antes se certificar de que ela não tinha outras armas e, para isso, aproveitando-se da poeira no ar, correu em ziguezague e aproximou-se da coisa, guiado apenas pelo vermelho dos olhos que parecia atravessar o pó como se fosse ar puro.
– Olha eu aqui! – disse Snake para a criatura a apenas cinco metros de distância – Essa sua espada aí é afiada mesmo? Eu quero ver!
A voz da garota ecoou em sua mente numa fração de segundo:
– Há 500 anos um dos meus candidatos a salvador fez algo parecido e virou salame tostado.
– Animador! – Snake respondeu em pensamento, no exato instante em que, com agilidade surpreendente, a coisa girou a espada luminosa no ar. Snake saltou para o lado e viu a lâmina descrever uma parábola e acertar o chão, causando uma pequena explosão azulada e lançando estilhaços de pedra e poeira por todos os lados.
– Muito bem! – Snake falou, rindo nervosamente – Você chegou bem perto dessa vez, mas quero ver se consegue me acertar de verdade! Vamos, tente! – e saltou para trás, parando com as costas em um pilar que sustentava a fachada quase intacta de um grande edifício cilíndrico de uns doze andares.
A garota dentro da prisão transparente olhava tudo com sua mente – seu corpo dormia um profundo sono, ela podia apenas enxergar o mundo pelo olho da alma e, claro, através dos olhos do próprio Snake durante os instantes em que entrava em seus pensamentos para falar com ele. Ela estava preocupada com o que seu pretenso salvador estava fazendo, afinal, ela estivera presa ali por pelo menos quinhentos mil anos e já exaurira todas as suas forças se mantendo viva em animação suspensa a espera de alguém que a libertasse. Não viveria o bastante para esperar por mais cem ou duzentos anos até que outro louco desvairado aparecesse para tentar. Era Snake ou ninguém mais. Sua vida dependia disso agora mais do que nunca e, mais uma vez, ela tocou a mente do caçador de tesouros dizendo:
– Você vai tentar fazê-lo derrubar o prédio em cima dele mesmo, não é? Um bom plano!
– Eu sei que é bom, fui eu quem o traçou. – a resposta de Snake voltou num relâmpago, já que diálogos mentais não necessariamente precisavam durar o tempo de palavras ditas com a boca – Só espero que seja o suficiente para detê-lo.
– Eu já vi essas coisas em ação, Snake. – a garota disse – Elas aguentam impactos muito duros, mas nunca vi nenhuma ser soterrada por um edifício. Se alguém fez isso antes não posso dizer, só sei que a idéia parece ótima! – e então mudou o tom, chamando atenção de Snake para o mundo real – Cuidado! Aí vem ele!
E veio mesmo. A coisa parecia gostar de desafios, mas não parecia ter bom senso em sua cabeça de metal dourado. Com um golpe horizontal – exatamente o que Snake esperava – a coisa atingiu o pilar, despedaçando-o – ao mesmo tempo que Snake já saltava para perto do pilar seguinte.
– Foi perto! Vamos lá! Mais uma vez com emoção! – Snake gritou, sentindo como se de repente fosse o maior de todos os heróis – Vamos! Eu sei que você consegue!
A coisa veio e atingiu o pilar seguinte. E o outro e o outro. Não demorou até que todos os pilares que sustentavam a fachada estivessem em pedaços e Snake, com saltos ágeis e precisos a aguardava, rindo, numa sacada no terceiro andar do mesmo edifício.
– Agora pisque seus lindos olhos vermelhos para mim, coisa feia! – gritou – Quero ver você brilhar!
Aquilo foi rápido e quase Snake levou a pior. Com menos de um segundo para saltar para baixo, viu a luz vermelha sair dos olhos do monstro enquanto caía e atingir o lugar onde ele estava. Sem querer parar para ver mais, correu com sua agilidade mágica para longe, valendo-se da poeira que levantou-se com mais aquele estrondoso impacto e escondeu-se atrás de outro edifício nas imediações. Ouviu o som estridente de metal retorcendo e pedra partindo e exatamente como planejara toda a estrutura caiu em cima da criatura, enchendo mais uma vez a grande praça com pó de pedra.
– Perfeito! – a voz da garota exultava de contentamento – Agora é esperar para ver se deu certo.
Snake sentiu seus pés pesarem naquele momento. O efeito do pergaminho cessara e agora ele não tinha mais a velocidade absurda de antes. Se a coisa se levantasse de onde estava, mesmo sob toneladas e mais toneladas de escombros, certamente ia matá-lo. Ele vira o quão rápida a coisa era com a espada e o quão certeira era com suas “flechas de luz”, não teria chance sem pés rápidos para correr mesmo tendo uma mente rápida para pensar.
A poeira baixou revelando a dimensão do estrago. O cubo translúcido com a garota dentro no centro permanecia inalterado, mas o que antes era um grande espaço empeirado entre os edifícios agora estava cheio de pedaços de pedra e metal resultado do desmoronamento daquele grande edifício. O outro que havia caído antes parecia não ter causado nenhum efeito visível, pois desabara sobre si mesmo, mas aquele grande edifício cilíndrico caíra para a frente e por muito pouco não soterrara também o cubo onde a garota estava.
– Você tem coragem de chegar perto para ver se a coisa está viva? – a voz dela surgiu na mente de Snake outra vez – Só para ter certeza…
– Melhor me certificar, você tem razão. – disse Snake – Mas se estiver…
– Vou ter que esperar outra pessoa vir me salvar. – disse ela, mas Snake sentiu um tom de brincadeira naquelas palavras e acabou por sorrir ao ouvi-las e respondeu:
– Não, você não vai precisar esperar mais. Ou serei eu ou serei eu. Já quase morri hoje algumas vezes e isso sempre me deixa com vontade de ir até o fim e, bem, se eu ainda estou aqui é porque sempre fui até o fim e ganhei.
– Você é tão confiante… – disse ela em seu pensamento – Imprudente, talvez, mas confiante. Gostei disso.
– Que bom que gostou. – Snake respondeu, dessa vez com a boca – Porque é assim que eu sou.
E foi até o monte de entulho – que tinha uns cinco metros de altura no lugar onde a coisa estivera momentos antes. Tudo imóvel e silencioso. Nem sinal de movimento, nem sinal de vida ou fosse lá o que fosse que animava aquele monstro assassino. Tudo estava calmo e quieto como quando Snake chegara naquele local menos de uma hora antes.
– Eu consegui! – exclamou ele, e o eco respondeu – Eu consegui matar o filho da mãe! Eu sou realmente o máximo!
– Snake? – a voz da garota chamou-o de seu momento de auto-exaltação – O que é essa coisa no chão aí perto de você?
Snake olhou para o chão e viu uma coisa bem estranha realmente. Um cilindro metálico da grossura de seu braço jazia em meio aos pedregulhos.
– O que é isso? – indagou ele mentalmente, esperando que a garota soubesse a resposta.
– É a espada do monstro. – ela disse – Você conseguiu fazer o que muita gente morreu tentando: separar o gigante de sua arma mais poderosa.
– E o que eu faço com isso?
– Ora, o que você tentou com sua espada e falhou! Me tire daqui!
– Tem razão! Mas a espada não tem lâmina!…
– A lâmina é feita de luz. – ela respondeu – Tem um botão no punho, aperte-o e a lâmina sai.
– Isso é algum tipo de mágica?
– Entenda assim se preferir. – foi a resposta – Agora vá rápido com isso, por favor.

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