CAPÍTULO 2: FRACASSO, DOR, ÓDIO E VINGANÇA

snakewithsword
Snake segurou firmemente o cilindro metálico como se fosse o punho de uma espada e com o polegar procurou pelo botão que a voz da garota lhe indicara. Eventualmente encontrou-o e quase desmaiou quando viu um jorro de luz emanar da ponta do artefato e desenhar os contornos do fio de uma formidável arma – que parecia de metal mas era feita de luz, um tanto transparente e luminosa e ainda assim sólida ante o olhar estupefato do caçador de tesouros, que no mesmo instante percebeu que havia posto as mãos em um artefato de valor inestimável, muito melhor que as armas mágicas que eram vendidas mesmo nos mercados mais concorridos de Thanisya.

 – Snake, pare de admirar seu brinquedo e use-o. – a voz da garota soou outra vez, cheia de impaciência – Eu quero sair daqui de uma vez e dar um abraço apertado no herói que me salvou de minha prisão de 500 mil anos!
O corpo do sujeito estremeceu. Era um solitário, não era muito bem visto pelas pessoas – que o confundiam com um tipo de ladrão ou saqueador de tumbas, como já havia sido chamado por alguns – e a menção de ganhar um abraço de uma bela garota lhe soou estranha como estranhos são os presentes que caem do céu estrelado nas noites de sonho dos contos infantis.
 – Certo. Eu nem sequer sei seu nome ainda, mas aí vai! Liberte-se de sua prisão e venha para a luz, bela jovem de cabelos azuis!
 – Que lindo… – a voz dela disse, num tom meigo – Você tem a postura dos heróis dos mitos, dos heróis do meu tempo. Todos nessa época são como você?
 – Não. – ele respondeu num instante – A maioria das pessoas prefere viver vidas cômodas com as bênçãos da magia e nem se dão ao trabalho de sair e enfrentar o mundo. A maioria não aguentaria dez minutos fora dos muros de suas cidades pacatas sem uma tonelada de pergaminhos mágicos e itens encantados para protegê-los.
 – Mas você também os usa… – ela quis argumentar.
 – E eu lá sou idiota de desperdiçar aquilo que é útil? Sou um caçador de tesouros, não um louco suicida!
Dizendo isso, Snake segurou a espada de luz com as duas mãos acima de sua cabeça. Apesar de grande, ela não tinha peso, ele sentia quase como se ela fosse uma extensão de seus braços. Posicionou-se diante do bloco transparente que aprisionava sua nova amiga e gritou a plenos pulmões:
 – Eu vou CONSEGUIR!
E desferiu um golpe com a espada no enorme bloco adamantino. Não sentiu que era importante preservar a integridade da garota, como se algo em sua mente dissesse que fosse o que fosse não iria machucá-la e, portanto, não se deteve. Quando sentiu a quase ausência de peso transformar-se numa explosão de puro poder, empolgou-se e fez mais quatro cortes em ângulos diferentes. Saltou para trás e desligou o botão, retraindo a lâmina de volta à não-existência.
Por um momento absolutamente nada aconteceu.
O sol já se escondia por trás dos edifícios, anunciando o começo da noite. Snake nem se deu conta de quanto tempo se passou enquanto olhava para o bloco semitransparente inalterado diante de seus olhos.
Haveria falhado?
E se aquela arma maravilhosa não pudera libertar a jovem, o que mais poderia?
E o que aconteceria com ela? Não aguentaria mais 100 ou 1000 ou 10.000 anos. Ele sentia a urgência da situação e aquilo pesou sobre ele. O bloco não se alterou.
 – Ei? – ele tentou tocar a mente dela com a mente – Você está bem?
Nada. Só silêncio.
E Snake já não aguentava mais o silêncio. E então ele sentiu a revolta pelo fracasso, a sensação de impotência frente o inevitável. Que demônio construíra aquele caixão de vidro inquebrável? Que força no mundo poderia fazer algo tão resistente que nem mesmo a espada de luz divina que ele havia utilizado foi incapaz de arranhar?
 – Maldito seja! – berrou – Maldito seja mil vezes quem fez isso!
E começou a esmurrar a superfície até ssuas mãos sangrarem, até sentir seus ossos ameaçarem se partir. Esmurrou com ódio, com pesar. Não conseguira salvar a bela jovem… e ela o chamara de herói!
Que droga de herói era ele que não conseguira salvar a vida daquela que contava única e exclusivamente com ele?
Mas não teve tempo de terminar de se recriminar por sua falha. Um som atrás dele o chamou outra vez à realidade e antes que ele visse a origem do som já sabia o que era: seu “amigo” de metal havia conseguido se desvencilhar das inúmeras toneladas de pedra que estavam esmagando-o e agora estava furioso e pronto para reclamar de volta a espada que soltara quando fora atingido pelo edifício em queda.
 – E mais essa agora… – resmungou Snake religando sua espada – Não tenho mais minha agilidade mágica mas o que eu tenho nas mãoss deve ser mais que suficiente para fatiá-lo inteiro!
Mal disse isso enquanto se virava para encarar seu adversário e teve de se jogar no chão porque outra vez a coisa usara suas malditas flechas de luz contra ele.
Foi um movimento irracional de pura autopreservação. Automático e impulsivo. Snake só se deu conta do que aconteceu de fato quando sentiu um monte de estilhaços de alguma coisa transparente caindo sobre ele e por todo lugar como uma chuva de diamantes.
Ele não quis olhar para trás. Sabia o que havia acontecido. A coisa atingira o bloco onde a garota estava e o desintegrara, reduzindo-o a cacos. Nada sobreviveria àquilo. E a raiva subiu-lhe à cabeça com um som de tambores em seus tímpanos, e sua vista escureceu.
Ele via apenas os olhos vermelhos da coisa diante dele. Mais nada. Sentia a espada de luz em sua mão e só. Não ouvia nada, não via nada. Era ele e a coisa, o mundo resumia-se a isso. Não conseguia pensar em mais nada além de usar sua nova arma e desmontar seu inimigo até o último pedaço de lata para descarregar todo o ódio que aqueles últimos instantes lhe fizeram sentir.
E golpeou uma vez, golpeou duas vezes e três vezes. Sentia o impacto da lâmina em algo sólido, via alguns clarões mas não ouvia nada. Seu cérebro era silêncio e escuridão, raiva cega e desejo de destruir a coisa.
“Se tudo mais falhar, vingue-se.”
Eram as palavras de um velho eremita que conhecera há alguns anos em suas andanças, um sujeito que avaliava peças antigas e tinha vasto conhecimento das relíquias do passado de Thanisya, alguém com quem ele gostara de dividir seu tempo quando passou por sua cabana no alto de uma colina de frente para o oceano. E agora ele entendia o que significava aquela frase. Falhara em salvar a bela jovem, falhara em ser o herói e agora ela nem sequer existia mais. Só lhe restava vingar-se.
Golpeava e golpeava sem cessar. Não conseguia ver em que estava realmente acertando, seus braços moviam-se velozmente com a fúria de cem guerreiros, e sua mente continuava apenas silêncio, dor, raiva e vingança…
E então ele sentiu.
Primeiro um impacto duro e seco no peito e depois o chão desapareceu de sob seus pés. E depois mais nada.
   

Anúncios

Deixe seu comentário:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s