CAPÍTULO 6 (Parte 2) – Viagem ao Centro da Terra

Assim que deixaram a caldeira caverna adentro, a temperatura tornou-se um pouco mais suportável. A luz avermelhada do magma penetrava na caverna permitindo ver os detalhes: paredes feitas de lava solidificada, pontilhadas de cristais de todos os tipos: ametistas cresciam como verrugas roxas na parede negra e era, definitivamente, uma bela visão para qualquer entusiasta da geologia. Zelda, porém, mesmo tendo algum conhecimento não se impressionava muito com nada daquilo – sinceramente preferia estar velejando para longe daquela ilha o mais rápido possível, mas como sua palavra era uma só e ela dissera que os ajudaria, ali estava, mas não estava feliz e não fazia questão de esconder isso.

Eles andaram em silêncio por um longo tempo. A caverna se dividia e se bifurcava em diversos pontos e Ramona julgava melhor ir cada vez mais fundo, escolhendo sempre o caminho que apontava para baixo, penetrando cada vez mais na rocha em busca dos tais cristais de mana. Uma caminhada monótona na escuridão, iluminada apenas por um globo azul de vidro que Zelda tirara do bolso e carregava na palma da mão estendida a frente deles.

De repente, um tremor fez com que os três perdessem o equilíbrio e quase caíssem no chão. Um som horrível percorreu as paredes, fazendo tudo vibrar ao redor. Um vento morno moveu-se pelo túnel e todos sabiam que aquilo não era um bom sinal.

 – É uma… – Snake começou, mas Zelda pôs a mão em sua boca, fazendo sinal para se calar.

 – Não diga. Não diga. Aprendi que enunciar um desastre o torna ainda mais desastroso, então fique quieto e vamos em frente.

Snake e Ramona nem pensaram duas vezes. Zelda apressou o passo e, como levava a luz consigo, isso forçou o casal atrás dela a seguir na mesma velocidade para não ficar no escuro. Percotteram mais alguns túneis por cerca de meia hora até que a caverna abriu-se em um enorme salão de rocha cujo teto era uma abóbada basáltica tão regular que parecia entalhada. Zelda fez um gesto sobre o globo azul, fazendo-o brilhar com ainda mais força, permitindo-lhes ver cada detalhe do enorme salão de rocha.

 – É impressionante, não é? – Snake comentou – Parece que foi construído por mãos humanas.

 – Asseguro que é totalmente natural. – Zelda disse – O magma se acumula nessas câmaras durante as erupções, a pressão dos gases e o calor intenso dão forma ao teto, já que a rocha acima de nós é muito dura para se partir. Durante erupções a temperatura aqui fica tão alta quanto a do próprio sol, então, bem, não é um bom lugar para se estar durante uma erup—

Um estrondo ainda mais intenso ecoou e tudo tremeu. Dessa vez, porém, nenhum dos três teve tempo de se apoiar nas paredes ou qualquer coisa. Foram toos jogados ao chão e o globo de luz de Zelda rolou para um canto e se partiu, provocando uma pequena explosão azul e depois mergulhando o salão rochoso na mais completa treva.

 – Acho que estamos em maus lençóis. – Ramona comentou – Se os tremores continuarem, certamente vai acontecer uma…

 – A gente já sabe. – Snake disse – Mas melhor não pensar nisso agora. Estamos enterrados a centenas de metros da superfície dentro de um vulcão ativo e precisamos encontrar seus preciosos cristais azuis para podermos dar o fora. Só quero que você saiba de uma coisa, Ramona, se eu morrer aqui hoje, vai ser culpa sua! Sua, entendeu?

 – E-entendi. – Ramona respondeu, cabisbaixa. De fato estava se sentindo culpada por ter arrastado todos eles para aquela situação que parecia agora chegar a um ponto insustentável. Se morressem seria sim culpa dela, ela sabia, então, o que podia fazer era dar um jeito de que ninguém morresse ali e o único jeito de fazer isso era achando os benditos cristais.

Mas como fazer isso no escuro?

 – Agora estamos numa pior. – Zelda disse – Odeio admitir, mas eu só tinha aquele globo de luz e agora não temos meios de enxergar nada aqui dentro. Alguém tem alguma sugestão ou podemos nos sentar e esperar o vulcão explodir e encher essa caverna com lava fervente?

Snake não pensou duas vezes. Era hora de bancar o herói, mas em vez de colocar todos em risco, agora ele podia salvar o dia. Sua espada de luz estava presa à sua calça e ele a sacou. Nem Zelda e nem Ramona viram-no fazê-lo, mas quando ele a acendeu e tudo ficou iluminado, ambas tiveram de bater palmas.

 – Parece que não estamos tão perdidos, afinal! – Zelda disse, sorrindo para Snake – Um bom pirata sempre tem um truque na manga para qualquer ocasião!

 – Eu não sou um pirata, sou um caçador de tesouros. – Snake corrigiu.

 – Eu nunca vi uma arma como essa sua. – Zelda falou, olhando para a lâmina brilhante – É um artefato antigo, imagino.

 – Sim. – Ramona falou, adiantando-se – Snake a ganhou ao destruir um dos guardiões dourados de… como vocês chamam… da Cidade dos Deuses.

E com uma nova fonte de luz, eles seguiram em frente. Agora os tremores não eram mais violentos e repentinos. Eram mais como uma vibração constante, e a temperatura já estava sensivelmente mais alta – alta demais. Quase tão alta quanto na chaminé do vulcão, e aquilo definitivamente não era bom.

 – Só eu estou sentindo esse calor? – Ramona perguntou.

 – Eu temia que fosse só eu. – disse Snake – Zelda?

 – Suando em bicas, se querem saber. Melhor acharmos logo os cristais ou vamos ter uma bela aula de como as coisas funcionam no interior do mundo.

Desceram ainda mais. Depois de uma curva, porém, depararam-se com um paredão de rocha bloqueando o túnel. E o calor estava ficando insuportável.

 – Acho que a lava está lentamente descendo pelas cavernas por onde viemos, isso explica o calor estar aumentando tanto. – Zelda disse – Nossa única chance é abrir caminho por essa parede de pedra.

 – Mas e se do outro lado houver uma câmara cheia de magma? – Snake indagou, alarmado.

 – Bem, nesse caso será o fim. – Zelda disse, séria – Mas seja o que for, derrube essa parede, porque pode ser nosso fim de um jeito ou de outro.

Snake não pensou duas vezes. Atacou o paredão de rocha com sua espada e fez vários cortes em todas as direções, marcando a pedra com linhas incandescentes onde a lâmina a havia cortado.

Em instantes toda a parede desmoronou, revelando uma passagem livre adiante – e o melhor de tudo: um ar fresco invadiu a caverna empurrando o calor para longe. Pelo que tudo indicava, não havia magma nas câmaras adiante, então era seguro prosseguir.

Antes que dessem dez passos, porém, perceberam que além do brilho da espada de luz, um brilho avermelhado começava a encher o túnel atrás deles. Zelda estava certa: a lava do vulcão estava subindo e inundando as cavernas adjacentes à caldeira e, no momento, estava indo na direção deles, ganhando velocidade com a descida, ameaçando torrá-los vivos.

 – Só tem uma coisa a fazer. – Snake disse – Vão em frente que eu vou resolver isso.

E ele deu um salto cravando a espada de luz no teto do túnel, que rachou e provocou um desmoronamento que obstruiu totalmente o caminho por onde haviam vindo, separando-os da lava fervente mas tirando-lhes o que parecia ser a única rota para voltar à superfície.

 – Muito bem, Snake. – Zelda exclamou – Ao menos agora a lava não vai nos alcançar… ao menos até que a pressão seja tanta que exploda a barricada que você fez. Vamos correr antes que seja tarde!

E correram.

Desceram e subiram túneis sinuosos, seguindo sempre pelas bifurcações que apontavam para baixo, pois Ramona suspeitava que os cristais de mana existissem apenas nas regiões mais profundas da terra. Após muitas subidas e descidas e curvas para a direita e esquerda, finalmente chegaram a uma enorme caverna iluminada.

 – Luz! – exclamou Ramona – Achamos! Luz! Luz azul! Só pode ser…

 – O lendário Império do Povo de Cristal! – Zelda exclamou, empolgada – Eu achei que fosse só uma lenda!

 – Povo de cristal? – Ramona parou – Nunca ouvi falar.

 – Não importa. – Zelda disse – Se sobrevivermos eu falo sobre eles.

Era uma caverna toda feita de cristal azul brilhante, com colunas trabalhadas se perdendo no alto teto. Devia ter uns duzentos metros de extensão e uns trinta de altura e era tão clara que Snake desligou sua espada para admirar seu brilho.

 – Eu nunca imaginei que houvessem tantos cristais de mana em um só lugar! – Ramona exclamou – Snake, por favor, corte um pedaço daquela estátua ali, só preciso de um fragmento para poder fazer a transferência de energia.

Snake outra vez sacou a espada de luz e, com todo o cuidado, cortou uma ponta da pedra azul, entregando-a em seguida para Ramona.

 – Isso vai servir. – ela comentou – Sentem-se porque eu preciso de uns minutos para fazer o trabalho.

Snake e Zelda sentaram-se escorados nas colunas enquanto Ramona, com a pedra entre as mãos, começou a recitar palavras em voz baixa que não pareciam fazer sentido algum. Aos poucos o pedaço de cristal em sua mão brilhou com mais força, sobrepujando o brilho de todo o salão, e eles puderam sentir a enorme energia acumulada sendo transferida.

 – Que garota estranha é essa? – Zelda perguntou a Snake em voz baixa – Ela tem mais conhecimentos de magia do que qualquer mestre da arte que eu conheci em toda a minha vida!

– Eu sei. – Snake disse – Quando esse mundo era mais jovem ela pertencia certamente a alguma elite de magos ou coisa do tipo…

 – Bom, não importa. O que me importa é como vamos sair daqui depois que ela terminar.

 – Não vai ser problema. – Snake disse, rindo – Ela é capaz de coisas incríveis, você vai ver.

Demorou uns vinte minutos. A caverna de cristal, aparentemente, não sofria os abalos da erupção vulcânica, provavelmente era mantida estável por um delicado equilíbrio de força mágica, então eles sentiam-se seguros de sentar e assistir Ramona fazer o ritual de transferência de energia com toda a calma enquanto recitava seu encantamento numa língua que certamente não era ouvida em Thanisya há muito, muito tempo.

Dentro em pouco, o cristal brilhou nas mãos da jovem com mais intensidade e depois apagou-se, ficando preto. Ela largou-o no chão e disse, sorrindo para eles:

 – Desculpem a demora, meus queridos amigos, agora estamos prontos para ir embora!

Ela estava incrível! Seu cabelo, seus olhos e suas roupas brilhavam, era como se toda a força do mundo emanasse dela, ela estava encharcada de pura magia, quinhentos mil anos de energia mágica gastos recuperados em menos de meia hora e o resultado era fantástico. Snake estava boquiaberto e Zelda também não conseguia parar de olhar Ramona, que a ela parecia uma espécie de divindade saída de alguma história louca de marinheiro.

 – Antes de irmos, Snake, pegue quanto mais desses cristais pudermos carregar. – Zelda disse – Algo tão poderoso deve também ser muito valioso!

 – Posso cortar um pouco deles para você se quiser. – Snake disse – Mas asseguro que mesmo os magos mais poderosos do mundo não dão valor algum a eles. São só pedras decorativas, ninguém conhece suas propriedades, ao menos até onde eu sei.

 – Não importa. – Zelda disse – Eu conheço um tesouro quando vejo um e isso aqui é mais valioso do que qualquer coisa que eu já vi. Sinto cheiro de fortuna nessa caverna e não vou sair daqui de mãos abanando!

Snake e Ramona se entreolharam sem dizer nada.

O caçador de tesouros usou mais uma vez de sua espada e cortou um belo pedaço de cristal, quase metade da cabeça de uma estátua de aparência draconiana que brotava da parede e, após picá-la em pedaços menores, disse à capitã pirata:

 – É tudo seu, se considera isso tão importante. – e, olhando para Ramona – Podemos ir agora?

 – Sim, vamos! – ela disse, rindo – Mas tem um probleminha.

 – Que probleminha? – Snake e Zelda indagaram ao mesmo tempo.

 – Eu havia pensado em nos teletransportar até a superfície, mas como não consigo nem imaginar onde é que estamos exatamente, não conseguiria nos tirar daqui. O teletransporte só funciona quando se tem uma noção de onde se está e de onde se quer ir.

 – Então você está dizendo que teremos que sair por outro caminho? – Zelda perguntou, mal-humorada – Que maravilha!

Se a caverna de cristal estava a salvo dos terremotos e erupções vulcânicas, aquilo foi demais para ela. Um violento tremor sacudiu tudo, fazendo as colunas azuis se estilhaçarem e o teto começar a ruir, ameaçando soterrar os três ali mesmo. O chão abriu-se em enormes fendas e pela entrada e por várias outras rachaduras, lava fervente começou a entrar, deixando-os ilhados em um pedaço de rocha enquanto todo o resto era tomado de rocha fundida. O cristal das paredes parecia suportar bem o calor, mas também parecia aumentar a intensidade do magma, que começou a borbulhar com violência, ameaçando engolir os três.

 – Que legal… – Zelda comentou – Agora estamos fe—

Um estrondo e um clarão se seguiram. Ramona havia feito algum tipo de mágica que explodiu a parede oposta da caverna, abrindo uma grande fenda e revelando outro espaço oco no âmago da montanha, só que dessa vez de rocha vulcânica e não de cristais mágicos azuis. A lava prontamente começou a fluir para aquele novo espaço e a pressão e o calor fizeram com que a rocha onde Snake, Zelda e Ramona estavam flutuasse como uma espécie de jangada em direção ao escuro desconhecido.

 – A lava flui em direção à superfície. – Zelda disse – Vai procurar um meio de alcançar uma abertura e, se não achar, vai explodir uma para nós.- Eu imaginei isso. – Ramona disse – Eu vou facilitar a nossa vida e criar uma barreira protetora, para nos manter mais frescos e protegidos dos respingos da lava.

E assim fez. Envolveu-os em uma bolha branca-perolada brilhante e eles navegaram em sua jangada de basalto pelo rio de lava que serpenteava ferozmente por túneis que pareciam não ter fim. A velocidade parecia crescer à medida em que percorriam caverna após caverna, até que de repente o rio de lava precipitava-se num imenso vazio. Os três não conseguiam nem gritar ou conversar, concentravam-se no que vinha a seguir e tanto Snake como Zelda agora tinham como única escolha confiar em Ramona com seus novos poderes mágicos para salvá-los de uma morte infeliz no interior do planeta.

A jangada de basalto caiu no vazio por alguns minutos durante os quais seus três ocupantes agarraram-se às suas bordas sem ousar se mexer ou falar, até acomodar-se sobre outro rio de lava, essa muito mais densa do que aquela em que antes flutuava e movia-se com muito menos velocidade.

 – Devemos ter alcançado uma piscina de magma. – Zelda disse – Estamos no limite entre a crosta de Thanisya e seu interior pastoso e quente. Devemos ter mergulhado a uma grande profundidade sem perceber, pois até onde sei isso fica a muitas milhas da superfície.

 – Isso significa que estamos presos aqui embaixo? – indagou Snake, meio sem saber o que pensar.

 – Mesmo se eu quisesse ser otimista, a resposta seria a mesma: sim, estamos presos aqui embaixo.

 – Ramona, você não pode fazer nada? – Snake perguntou.

 – Acho que qualquer tentativa sem saber sequer ao certo onde estamos seria suicídio.

 – Que ótimo! – Zelda suspirou, sarcasticamente – Se nem seus poderes podem nos salvar, estamos de fato condenados!

E os três, deprimidos pela situação, sentaram-se juntos no centro de seu barco de pedra improvisado e deixaram-se levar pela corrente de magma, na esperança de que o acaso os tirasse daquela enrascada.

CAPÍTULO 6 (Parte 1) – O vulcão

 – Bem. – disse Ramona após terminarem a refeição – Partiremos assim que você estiver pronto.

Snake sentia-se cheio. Fazia tempo que não comia tão bem e aquilo o deixara pesado e sonolento, mas não podia demonstrar fraqueza diante da garota. Era contra seus princípios de aventureiro deixar claro que não estava pronto, então resolveu ganhar tempo:

 – Que acha de voltarmos à praia? Quero ver se por acaso minha mochila foi trazida pela maré.

 – Você perdeu sua mochila de novo? – Ramona indagou.

 – Na verdade eu a joguei fora enquanto estava no mar. Achei que era só peso extra, mas agora estou sentindo falta dela.

Ramona suspirou e abanou a cabeça desanimada.

 – Tudo bem, vamos.

E eles tornaram à praia, saindo de sob a sombra das palmeiras. Snake ia na frente, olhando para todos os lados como se procurasse realmente sua mochila, apesar de saber que ela certamente não teria sido jogada à praia pelas ondas do mar, pois a maré estava baixando quando chegaram e a maré alta demoraria até a noite para acontecer, mas precisava fazer a digestão antes de seguir para a agradável jornada de escalada até o vulcão.

Estava andando já há alguns minutos, olhando para o mar e para o chão quando de repente sentiram uma presença. Uma presença daquelas que se sente de longe, nem boa e nem má, apenas um indício de que havia alguém lá. Continuaram andando mais alguns momentos até que uma voz feminina os interrompeu:

 – Vão a algum lugar?

Era uma mulher de seus vinte e cinco, trinta anos, vestindo preto, com cabelos pretos e brancos – Snake duvidava que aquilo fosse natural -, que os encarava de pé, plantada na areia como uma árvore. Sua expressão era impassível como pedra e ela não parecia feliz em vê-los ali.

 – Quem são vocês e o que querem nessa ilha? – ela perguntou, demonstrando que queria urgentemente uma resposta e fazia questão de que fosse satisfatória.

 – Sou Snake, de Ontherocks, no Reino do Oeste, caçador de tesouros, e esta… – e já ia apresentar Ramona quando ela o interrompeu:

 – Ramona Lockhart, de Lawrenshia, arquimaga honorária da Escola dos Sete Elementos. E você, quem é?

A mulher parou por um momento como que refletindo sobre o que lhes haviam dito e logo falou:

 – Ontherocks eu sei onde fica… é um vilarejo no meio do nada e que dá para contar as casas nos dedos, se bem sei. Conheço sua reputação de saqueador de tumbas, senhor Snake. Mas Lawrenshia eu nunca ouvi falar e nem essa tal Escola dos Sete Elementoss. Até porque sempre achei que os elementos da magia fossem seis.

 – Fica muito longe. – Ramona tentou consertar – Você provavelmente nunca ouviu falar. Quase ninguém conhece.

 – Eu imagino. – a mulher respondeu, sarcástica – Bem, não importa. O que estão fazendo aqui?

 – Estamos perdidos. – disse Snake – Somos náufragos, fomos jogados aqui e agora estamos em busca de um meio de dar o fora.

 – Que ótimo! – a mulher disse – Eu tenho um barco ancorado numa baía a duas horas de caminhada daqui. Se quiserem partir, posso levá-los até o porto comercial mais próximo. Parto ao anoitecer.

 – Bem, acho que não estaremos de volta até o anoitecer. – Snake disse – Temos que procurar uma coisa aqui antes…

 – Ah, então o Senhor Caça-Tesouros veio aqui com mais alguma coisa em mente? – ela disse, rindo – Sabia que não estava perdido, estava procurando algo valioso para roubar e vender!

 – Na verdade, não. – disse Ramona, apelando para a verdade – O que estamos procurando são cristais azuis de um tipo bem especial que podemos talvez encontrar dentro daquele vulcão.- e apontou para a montanha fumegante -Vamos ir até lá para ver se encontramos algum.

 – Cristais, huh? – a mulher parecia agora verdadeiramente curiosa – E quanto valeriam esses cristais? Dez mil moedas de ouro? Cem mil?

 – Cinco moedas de prata, no máximo. – Snake disse – Já vi alguns por aí e eles não valem grande coisa pois não têm serventia alguma.

 – E por que vocês iriam querer entrar na cratera de um vulcão por míseras cinco moedas de prata?

 – É porque para mim um desses cristais seria valioso. – Ramona respondeu – Preciso disso para fazer um encantamento de suma importância.

A mulher ponderou por um momento. Parecia interessante demais para deixá-los ir sozinhos, então ela propôs:

 – Posso ir com vocês? Isto é… se quiserem companhia.

 – Claro! – responderam Snake e Ramona ao mesmo tempo (ambos perceberam que para uma missão com tamanho risco, ainda mais sem os poderes mágicos da garota, qualquer ajuda mesmo que de uma desconhecida poderia ser valiosa).

 – Deixem-me apresentar. – a mulher falou – Sou Zelda Lorraine Eckhart, capitã do navio pirata Dragão dos Mares.

 – Muito prazer. – Snake disse, sorrindo.

 – Com prazer é sempre mais caro. – respondeu Zelda, rindo – Vamos partir agora mesmo, se quisermos estar de volta ainda hoje.

 – Por mim está ótimo. – Ramona concordou – E, Snake, pare de ser tão gentil com ela, pois eu fico com ciúmes.

 – Não precisa ter ciúmes, docinho. – a capitã pirata falou, sorrindo amigavelmente – Não gosto de homens.

Snake e Ramona se entreolharam, mas a senhora Lorraine completou:

 – Nem de mulheres. Eu só gosto do mar, pois ele é o único que me entende.

 – Ah, bom! – exclamaram os dois em tom de alívio.

 – Vamos. – Zelda urgiu, já embrenhando-se no bosque como se soubesse o caminho – A escalada vai ser difícil.

 – E você não vai levar equipaamento? – Snake perguntou.

 – E você vai? Não vejo nenhuma mochila em suas costas, o que nos põe em situação de empate. – Zelda respondeu, encerrando a questão. Ramona não conseguiu conter uma risadinha.

A escalada até a cratera do vulcão não era especialmente difícil. O terreno não era muito íngreme e Zelda parecia conhecer bem o lugar, algo que Snake e Ramona questionaram em silêncio a princípio mas decidiram que não era relevante comentar. Demoraram três horas para ir da praia até o topo e fizeram todo o caminho em silêncio. Era um acordo não verbal que nenhum dos três ousava quebrar, talvez pela expressão excessivamente séria de Zelda ou pelos pensameentos inquietos de Snake ou pela muda expectativa de Ramona em reaver seus poderes mágicos, mas ninguém parecia ter o que falar.

Quando estavam a pouco menos de duzentos metros da cratera, foi Snake quem interrompeu o som da brisa e perguntou:

 – Senhorita Zelda, posso lhe fazer uma pergunta?

A mulher, que estava alguns passos adiante parou e se virou para ele, com uma expressão de poucos amigos. Depois de dois segundos ela abrandou o rosto e sorriu, dizendo:

 – Achei que nunca fossem dizer nada. Já estava ficando cansada de andar sem conversar. Pergunte o que quiser.

Ramona ficou com aquela expressão de “olha bem o que você vai dizer” mas Snake ignorou. Sua curiosidade o forçava a perguntar e foi o que ele fez:

 – Você parece conhecer bem essa ilha, tanto que nos trouxe até aqui em cima por um caminho que pareceu um passeio no parque. O que você estava fazendo aqui quando nos encontramos?

 – Ah, sim! – Zelda disse, com um tom de voz que parecia zangado mas que conflitava com o ar divertido de seu rosto – Vim até aqui enterrar um tesouro, como fazem os piratas.

 – Um tesouro? – Ramona intrometeu-se – Posso saber que tipo de tesouro seria?

 – Pode. – Zelda disse, rindo com gosto – Mas se você ficar sabendo eu vou ter que te matar.

Snake, que não se intimidava com bravatas por estar demasiadamente acostumado a discussões em tabernas e coisas do tipo, insistiu por sua própria conta e risco:

 -Pode nos contar, Zelda, não se preocupe. Não queremos seja lá o que for que você tenha enterrado. É só curiosidade. E além do mais, nós lhe dissemos o que estamos procurando. Fomos honestos com você, você bem que poderia retribuir, não é?

A capitã pirata soltou uma gargalhada. Ela realmente achara graça do que Snake dissera. Ser honesta não era uma de suas virtudes, ainda que soubesse usar de sinceridade com quem a merecesse. Mas ela era uma pirata e piratas não devem sair por aí contando seus segredos, pelo bem de suas próprias vidas.

 – Eu já retribuí sua honestidade vindo com vocês para ajudá-los em sua pequena missão. – ela disse – Não abuse da minha boa vontade pois eu não fiz minha fama na pirataria às custas de cortesia e boas maneiras, OK?

Snake engoliu em seco e se calou. Continuaram andando como se aquela conversa não tivesse ocorrido até chegar à borda da cratera. Saía uma enorme coluna de vapor lá de dentro, indicando que o vulcão estava bem acordado e o calor na borda era muito mais intenso do que na praia, mostrando que ali os fogos internos do planeta afloravam com toda a sua força.

 – Pelo que sei de geologia, – Zelda comentou sem se virar para trás – veios minerais com alinhamentos cristalinos regulares são encontrados bem lá no fundo, na caldeira do vulcão. Teremos de descer muito para encontrar seus cristais, senhorita Ramona, e espero que tenha consciência de que se cometer um erro sequer, vai acabar tomando um banho de lava derretida lá no fundo do vulcão ou sendo atingida por alguma pedra ou coisa do tipo. E você, Snake, já vi que você tem cara de que gosta de bancar o herói… saiba que vulcões não são brinquedos e nem lugares para principiantes fazerem loucuras para impressionar garotas, certo?

Snake e Ramona examinaram a superfície da chaminé vulcânica. Era lisa demais, regular demais e íngreme demais. Era impossível descer sem algum tipo de equipamento de escalada e, pelo que estava bem claro, ninguém havia trazido nada.

 – Como vamos chegar lá embaixo? – Snake perguntou para Ramona – Tem alguma ideia?

 – Se eu tivesse meus poderes, seria uma questão de estalar os dedos e pronto. – ela respondeu – Mas infelizmente é por não ter meus poderes que estamos aqui…

Zelda olhou para os dois com desprezo e disse:

 – Já vi que vocês subiram aqui sem sequer um plano de como chegar lá embaixo. Tudo bem, vocês estão com sorte de eu estar com vocês. Vou mostrar-lhes um dos meus segredos para o sucesso, mas quero que prometam que nunca vão contar isso a ninguém, certo?

Ambos concordaram. Zelda sorriu satisfeita. Enfiando dois dedos na boca, soltou um assobio tão alto que pareceu percorrer toda a ilha e espalhar-se pelo mar em volta. A princípio nada acontceu, mas logo Snake e Ramona viram, saindo da baía onde o barco dela estava ancorado um pequeno ponto luminoso que parecia voar muito rápido. Fosse o que fosse, vinha direto na direção deles e em grande velocidade.

 – O que é aquilo? – indagou Ramona, curiosa – O que vem vindo ali?

 – É um tapete mágico. – Zelda respondeu, acompanhando o objeto com o olhar a medida em que se aproximava – O encontrei em uma ruína antiga na costa do Continente Sul. Eu o uso para me deslocar por lugares em que meu navio ou minhas próprias pernas não possam me levar.

 – Um tapete mágico? – Snake exclamou – Eu achei que eles fossem apenas histórias para crianças!

 – Bem, os thanisyanos nunca foram um povo muito criativo em matéria de lendas… – Ramona ponderou – No meu tempo usávamos tapetes flutuantes para transporte dentro de grandes edifícios, levando cargas e pessoas de um andar a outro ou mesmo por distâncias maiores dentro de cidades ou grandes fortalezas. Não sabia que havia algum funcioonando depois de tanto tempo!

 – Você já viu um desses? – Zelda perguntou assim que o tapete parou diante deles, ondulando suavemente a apenas vinte centímetros do chão, quase tão plano e firme como se estivesse apoiado sobre algo sólido.

 – Sim. – Ramona respondeu – Eram bem comuns no meu tempo.

 – Você deve ser bem velha para ter tido essa oportunidade. – Zelda comentou, sarcástica – Até onde sei tapetes voadores não são vistos por olhos mortais há mais de 300 mil anos!

 – Bem, há 500 mil anos eram bem comuns. – Ramona falou, ignorando a piadinha sem graça.

 – Você está me dizendo que tem 500 mil anos de idade? – Zelda quase engasgou.

 – Na verdade se descontar o tempo que fiquei congelada eu tenho apenas vinte e três, mas se contarmos o tempo em que fiquei presa então tenho quinhentos mil e vinte e três anos.

 – Mas com corpinho de vinte e dois! – Snake comentou, dando risada.

 – Certo, certo. Já vi que a história de vocês é bem cabeluda, então nem vou perder tempo querendo saber dos detalhes. Algo me diz quue quanto menos eu souber melhor vai ser, então, todos a bordo!

Ramona e Snake sentiram-se aliviados pela conversa ter terminado ali. Ambos subiram no tapete conforme Zelda lhes indicara e se prepararam para a descida pela chaminé fumegante, direto para o coração ardente do vulcão ativo.

A descida era suave, mas o calor crescia cada vez mais e todos estavam suando em bicas. O tapete começava a oscilar, dando sinais de que estava atingindo seu limite de quanto calor podia suportar, mas Zelda forçou-o mais um pouco até alcançar umaa reentrância na lateral da caverna cilíndrica que era a caldeira do vulcão. A entrada da cratera era agora um pequeno disco enevoado lá no alto, e eles estavam a apenas algumas dezenas de metros do magma fundido. O tapete pairou sobre um platô rochoso que dava para uma caverna escura que parecia entrar bem fundo na montanha.

 – Daqui seguimos a pé. – Zelda disse – Se o tapete ficar aqui embaixo por mais tempo ele vai queimar e não teremos meios de subir de volta. Desçam.

Snake e Ramona saltaram fora do tapete voador. Zelda também o fez.

A capitã pirata fez um sinal com a mão e o tapete subiu rapidamente, perdendo-se ente as nuvens de vapor. Agora tinham que procurar – e torcer para o vulcão não entrar em erupção com eles lá dentro.