CAPÍTULO 6 (Parte 1) – O vulcão

 – Bem. – disse Ramona após terminarem a refeição – Partiremos assim que você estiver pronto.

Snake sentia-se cheio. Fazia tempo que não comia tão bem e aquilo o deixara pesado e sonolento, mas não podia demonstrar fraqueza diante da garota. Era contra seus princípios de aventureiro deixar claro que não estava pronto, então resolveu ganhar tempo:

 – Que acha de voltarmos à praia? Quero ver se por acaso minha mochila foi trazida pela maré.

 – Você perdeu sua mochila de novo? – Ramona indagou.

 – Na verdade eu a joguei fora enquanto estava no mar. Achei que era só peso extra, mas agora estou sentindo falta dela.

Ramona suspirou e abanou a cabeça desanimada.

 – Tudo bem, vamos.

E eles tornaram à praia, saindo de sob a sombra das palmeiras. Snake ia na frente, olhando para todos os lados como se procurasse realmente sua mochila, apesar de saber que ela certamente não teria sido jogada à praia pelas ondas do mar, pois a maré estava baixando quando chegaram e a maré alta demoraria até a noite para acontecer, mas precisava fazer a digestão antes de seguir para a agradável jornada de escalada até o vulcão.

Estava andando já há alguns minutos, olhando para o mar e para o chão quando de repente sentiram uma presença. Uma presença daquelas que se sente de longe, nem boa e nem má, apenas um indício de que havia alguém lá. Continuaram andando mais alguns momentos até que uma voz feminina os interrompeu:

 – Vão a algum lugar?

Era uma mulher de seus vinte e cinco, trinta anos, vestindo preto, com cabelos pretos e brancos – Snake duvidava que aquilo fosse natural -, que os encarava de pé, plantada na areia como uma árvore. Sua expressão era impassível como pedra e ela não parecia feliz em vê-los ali.

 – Quem são vocês e o que querem nessa ilha? – ela perguntou, demonstrando que queria urgentemente uma resposta e fazia questão de que fosse satisfatória.

 – Sou Snake, de Ontherocks, no Reino do Oeste, caçador de tesouros, e esta… – e já ia apresentar Ramona quando ela o interrompeu:

 – Ramona Lockhart, de Lawrenshia, arquimaga honorária da Escola dos Sete Elementos. E você, quem é?

A mulher parou por um momento como que refletindo sobre o que lhes haviam dito e logo falou:

 – Ontherocks eu sei onde fica… é um vilarejo no meio do nada e que dá para contar as casas nos dedos, se bem sei. Conheço sua reputação de saqueador de tumbas, senhor Snake. Mas Lawrenshia eu nunca ouvi falar e nem essa tal Escola dos Sete Elementoss. Até porque sempre achei que os elementos da magia fossem seis.

 – Fica muito longe. – Ramona tentou consertar – Você provavelmente nunca ouviu falar. Quase ninguém conhece.

 – Eu imagino. – a mulher respondeu, sarcástica – Bem, não importa. O que estão fazendo aqui?

 – Estamos perdidos. – disse Snake – Somos náufragos, fomos jogados aqui e agora estamos em busca de um meio de dar o fora.

 – Que ótimo! – a mulher disse – Eu tenho um barco ancorado numa baía a duas horas de caminhada daqui. Se quiserem partir, posso levá-los até o porto comercial mais próximo. Parto ao anoitecer.

 – Bem, acho que não estaremos de volta até o anoitecer. – Snake disse – Temos que procurar uma coisa aqui antes…

 – Ah, então o Senhor Caça-Tesouros veio aqui com mais alguma coisa em mente? – ela disse, rindo – Sabia que não estava perdido, estava procurando algo valioso para roubar e vender!

 – Na verdade, não. – disse Ramona, apelando para a verdade – O que estamos procurando são cristais azuis de um tipo bem especial que podemos talvez encontrar dentro daquele vulcão.- e apontou para a montanha fumegante -Vamos ir até lá para ver se encontramos algum.

 – Cristais, huh? – a mulher parecia agora verdadeiramente curiosa – E quanto valeriam esses cristais? Dez mil moedas de ouro? Cem mil?

 – Cinco moedas de prata, no máximo. – Snake disse – Já vi alguns por aí e eles não valem grande coisa pois não têm serventia alguma.

 – E por que vocês iriam querer entrar na cratera de um vulcão por míseras cinco moedas de prata?

 – É porque para mim um desses cristais seria valioso. – Ramona respondeu – Preciso disso para fazer um encantamento de suma importância.

A mulher ponderou por um momento. Parecia interessante demais para deixá-los ir sozinhos, então ela propôs:

 – Posso ir com vocês? Isto é… se quiserem companhia.

 – Claro! – responderam Snake e Ramona ao mesmo tempo (ambos perceberam que para uma missão com tamanho risco, ainda mais sem os poderes mágicos da garota, qualquer ajuda mesmo que de uma desconhecida poderia ser valiosa).

 – Deixem-me apresentar. – a mulher falou – Sou Zelda Lorraine Eckhart, capitã do navio pirata Dragão dos Mares.

 – Muito prazer. – Snake disse, sorrindo.

 – Com prazer é sempre mais caro. – respondeu Zelda, rindo – Vamos partir agora mesmo, se quisermos estar de volta ainda hoje.

 – Por mim está ótimo. – Ramona concordou – E, Snake, pare de ser tão gentil com ela, pois eu fico com ciúmes.

 – Não precisa ter ciúmes, docinho. – a capitã pirata falou, sorrindo amigavelmente – Não gosto de homens.

Snake e Ramona se entreolharam, mas a senhora Lorraine completou:

 – Nem de mulheres. Eu só gosto do mar, pois ele é o único que me entende.

 – Ah, bom! – exclamaram os dois em tom de alívio.

 – Vamos. – Zelda urgiu, já embrenhando-se no bosque como se soubesse o caminho – A escalada vai ser difícil.

 – E você não vai levar equipaamento? – Snake perguntou.

 – E você vai? Não vejo nenhuma mochila em suas costas, o que nos põe em situação de empate. – Zelda respondeu, encerrando a questão. Ramona não conseguiu conter uma risadinha.

A escalada até a cratera do vulcão não era especialmente difícil. O terreno não era muito íngreme e Zelda parecia conhecer bem o lugar, algo que Snake e Ramona questionaram em silêncio a princípio mas decidiram que não era relevante comentar. Demoraram três horas para ir da praia até o topo e fizeram todo o caminho em silêncio. Era um acordo não verbal que nenhum dos três ousava quebrar, talvez pela expressão excessivamente séria de Zelda ou pelos pensameentos inquietos de Snake ou pela muda expectativa de Ramona em reaver seus poderes mágicos, mas ninguém parecia ter o que falar.

Quando estavam a pouco menos de duzentos metros da cratera, foi Snake quem interrompeu o som da brisa e perguntou:

 – Senhorita Zelda, posso lhe fazer uma pergunta?

A mulher, que estava alguns passos adiante parou e se virou para ele, com uma expressão de poucos amigos. Depois de dois segundos ela abrandou o rosto e sorriu, dizendo:

 – Achei que nunca fossem dizer nada. Já estava ficando cansada de andar sem conversar. Pergunte o que quiser.

Ramona ficou com aquela expressão de “olha bem o que você vai dizer” mas Snake ignorou. Sua curiosidade o forçava a perguntar e foi o que ele fez:

 – Você parece conhecer bem essa ilha, tanto que nos trouxe até aqui em cima por um caminho que pareceu um passeio no parque. O que você estava fazendo aqui quando nos encontramos?

 – Ah, sim! – Zelda disse, com um tom de voz que parecia zangado mas que conflitava com o ar divertido de seu rosto – Vim até aqui enterrar um tesouro, como fazem os piratas.

 – Um tesouro? – Ramona intrometeu-se – Posso saber que tipo de tesouro seria?

 – Pode. – Zelda disse, rindo com gosto – Mas se você ficar sabendo eu vou ter que te matar.

Snake, que não se intimidava com bravatas por estar demasiadamente acostumado a discussões em tabernas e coisas do tipo, insistiu por sua própria conta e risco:

 -Pode nos contar, Zelda, não se preocupe. Não queremos seja lá o que for que você tenha enterrado. É só curiosidade. E além do mais, nós lhe dissemos o que estamos procurando. Fomos honestos com você, você bem que poderia retribuir, não é?

A capitã pirata soltou uma gargalhada. Ela realmente achara graça do que Snake dissera. Ser honesta não era uma de suas virtudes, ainda que soubesse usar de sinceridade com quem a merecesse. Mas ela era uma pirata e piratas não devem sair por aí contando seus segredos, pelo bem de suas próprias vidas.

 – Eu já retribuí sua honestidade vindo com vocês para ajudá-los em sua pequena missão. – ela disse – Não abuse da minha boa vontade pois eu não fiz minha fama na pirataria às custas de cortesia e boas maneiras, OK?

Snake engoliu em seco e se calou. Continuaram andando como se aquela conversa não tivesse ocorrido até chegar à borda da cratera. Saía uma enorme coluna de vapor lá de dentro, indicando que o vulcão estava bem acordado e o calor na borda era muito mais intenso do que na praia, mostrando que ali os fogos internos do planeta afloravam com toda a sua força.

 – Pelo que sei de geologia, – Zelda comentou sem se virar para trás – veios minerais com alinhamentos cristalinos regulares são encontrados bem lá no fundo, na caldeira do vulcão. Teremos de descer muito para encontrar seus cristais, senhorita Ramona, e espero que tenha consciência de que se cometer um erro sequer, vai acabar tomando um banho de lava derretida lá no fundo do vulcão ou sendo atingida por alguma pedra ou coisa do tipo. E você, Snake, já vi que você tem cara de que gosta de bancar o herói… saiba que vulcões não são brinquedos e nem lugares para principiantes fazerem loucuras para impressionar garotas, certo?

Snake e Ramona examinaram a superfície da chaminé vulcânica. Era lisa demais, regular demais e íngreme demais. Era impossível descer sem algum tipo de equipamento de escalada e, pelo que estava bem claro, ninguém havia trazido nada.

 – Como vamos chegar lá embaixo? – Snake perguntou para Ramona – Tem alguma ideia?

 – Se eu tivesse meus poderes, seria uma questão de estalar os dedos e pronto. – ela respondeu – Mas infelizmente é por não ter meus poderes que estamos aqui…

Zelda olhou para os dois com desprezo e disse:

 – Já vi que vocês subiram aqui sem sequer um plano de como chegar lá embaixo. Tudo bem, vocês estão com sorte de eu estar com vocês. Vou mostrar-lhes um dos meus segredos para o sucesso, mas quero que prometam que nunca vão contar isso a ninguém, certo?

Ambos concordaram. Zelda sorriu satisfeita. Enfiando dois dedos na boca, soltou um assobio tão alto que pareceu percorrer toda a ilha e espalhar-se pelo mar em volta. A princípio nada acontceu, mas logo Snake e Ramona viram, saindo da baía onde o barco dela estava ancorado um pequeno ponto luminoso que parecia voar muito rápido. Fosse o que fosse, vinha direto na direção deles e em grande velocidade.

 – O que é aquilo? – indagou Ramona, curiosa – O que vem vindo ali?

 – É um tapete mágico. – Zelda respondeu, acompanhando o objeto com o olhar a medida em que se aproximava – O encontrei em uma ruína antiga na costa do Continente Sul. Eu o uso para me deslocar por lugares em que meu navio ou minhas próprias pernas não possam me levar.

 – Um tapete mágico? – Snake exclamou – Eu achei que eles fossem apenas histórias para crianças!

 – Bem, os thanisyanos nunca foram um povo muito criativo em matéria de lendas… – Ramona ponderou – No meu tempo usávamos tapetes flutuantes para transporte dentro de grandes edifícios, levando cargas e pessoas de um andar a outro ou mesmo por distâncias maiores dentro de cidades ou grandes fortalezas. Não sabia que havia algum funcioonando depois de tanto tempo!

 – Você já viu um desses? – Zelda perguntou assim que o tapete parou diante deles, ondulando suavemente a apenas vinte centímetros do chão, quase tão plano e firme como se estivesse apoiado sobre algo sólido.

 – Sim. – Ramona respondeu – Eram bem comuns no meu tempo.

 – Você deve ser bem velha para ter tido essa oportunidade. – Zelda comentou, sarcástica – Até onde sei tapetes voadores não são vistos por olhos mortais há mais de 300 mil anos!

 – Bem, há 500 mil anos eram bem comuns. – Ramona falou, ignorando a piadinha sem graça.

 – Você está me dizendo que tem 500 mil anos de idade? – Zelda quase engasgou.

 – Na verdade se descontar o tempo que fiquei congelada eu tenho apenas vinte e três, mas se contarmos o tempo em que fiquei presa então tenho quinhentos mil e vinte e três anos.

 – Mas com corpinho de vinte e dois! – Snake comentou, dando risada.

 – Certo, certo. Já vi que a história de vocês é bem cabeluda, então nem vou perder tempo querendo saber dos detalhes. Algo me diz quue quanto menos eu souber melhor vai ser, então, todos a bordo!

Ramona e Snake sentiram-se aliviados pela conversa ter terminado ali. Ambos subiram no tapete conforme Zelda lhes indicara e se prepararam para a descida pela chaminé fumegante, direto para o coração ardente do vulcão ativo.

A descida era suave, mas o calor crescia cada vez mais e todos estavam suando em bicas. O tapete começava a oscilar, dando sinais de que estava atingindo seu limite de quanto calor podia suportar, mas Zelda forçou-o mais um pouco até alcançar umaa reentrância na lateral da caverna cilíndrica que era a caldeira do vulcão. A entrada da cratera era agora um pequeno disco enevoado lá no alto, e eles estavam a apenas algumas dezenas de metros do magma fundido. O tapete pairou sobre um platô rochoso que dava para uma caverna escura que parecia entrar bem fundo na montanha.

 – Daqui seguimos a pé. – Zelda disse – Se o tapete ficar aqui embaixo por mais tempo ele vai queimar e não teremos meios de subir de volta. Desçam.

Snake e Ramona saltaram fora do tapete voador. Zelda também o fez.

A capitã pirata fez um sinal com a mão e o tapete subiu rapidamente, perdendo-se ente as nuvens de vapor. Agora tinham que procurar – e torcer para o vulcão não entrar em erupção com eles lá dentro.

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