CAPÍTULO 6 (Parte 2) – Viagem ao Centro da Terra

Assim que deixaram a caldeira caverna adentro, a temperatura tornou-se um pouco mais suportável. A luz avermelhada do magma penetrava na caverna permitindo ver os detalhes: paredes feitas de lava solidificada, pontilhadas de cristais de todos os tipos: ametistas cresciam como verrugas roxas na parede negra e era, definitivamente, uma bela visão para qualquer entusiasta da geologia. Zelda, porém, mesmo tendo algum conhecimento não se impressionava muito com nada daquilo – sinceramente preferia estar velejando para longe daquela ilha o mais rápido possível, mas como sua palavra era uma só e ela dissera que os ajudaria, ali estava, mas não estava feliz e não fazia questão de esconder isso.

Eles andaram em silêncio por um longo tempo. A caverna se dividia e se bifurcava em diversos pontos e Ramona julgava melhor ir cada vez mais fundo, escolhendo sempre o caminho que apontava para baixo, penetrando cada vez mais na rocha em busca dos tais cristais de mana. Uma caminhada monótona na escuridão, iluminada apenas por um globo azul de vidro que Zelda tirara do bolso e carregava na palma da mão estendida a frente deles.

De repente, um tremor fez com que os três perdessem o equilíbrio e quase caíssem no chão. Um som horrível percorreu as paredes, fazendo tudo vibrar ao redor. Um vento morno moveu-se pelo túnel e todos sabiam que aquilo não era um bom sinal.

 – É uma… – Snake começou, mas Zelda pôs a mão em sua boca, fazendo sinal para se calar.

 – Não diga. Não diga. Aprendi que enunciar um desastre o torna ainda mais desastroso, então fique quieto e vamos em frente.

Snake e Ramona nem pensaram duas vezes. Zelda apressou o passo e, como levava a luz consigo, isso forçou o casal atrás dela a seguir na mesma velocidade para não ficar no escuro. Percotteram mais alguns túneis por cerca de meia hora até que a caverna abriu-se em um enorme salão de rocha cujo teto era uma abóbada basáltica tão regular que parecia entalhada. Zelda fez um gesto sobre o globo azul, fazendo-o brilhar com ainda mais força, permitindo-lhes ver cada detalhe do enorme salão de rocha.

 – É impressionante, não é? – Snake comentou – Parece que foi construído por mãos humanas.

 – Asseguro que é totalmente natural. – Zelda disse – O magma se acumula nessas câmaras durante as erupções, a pressão dos gases e o calor intenso dão forma ao teto, já que a rocha acima de nós é muito dura para se partir. Durante erupções a temperatura aqui fica tão alta quanto a do próprio sol, então, bem, não é um bom lugar para se estar durante uma erup—

Um estrondo ainda mais intenso ecoou e tudo tremeu. Dessa vez, porém, nenhum dos três teve tempo de se apoiar nas paredes ou qualquer coisa. Foram toos jogados ao chão e o globo de luz de Zelda rolou para um canto e se partiu, provocando uma pequena explosão azul e depois mergulhando o salão rochoso na mais completa treva.

 – Acho que estamos em maus lençóis. – Ramona comentou – Se os tremores continuarem, certamente vai acontecer uma…

 – A gente já sabe. – Snake disse – Mas melhor não pensar nisso agora. Estamos enterrados a centenas de metros da superfície dentro de um vulcão ativo e precisamos encontrar seus preciosos cristais azuis para podermos dar o fora. Só quero que você saiba de uma coisa, Ramona, se eu morrer aqui hoje, vai ser culpa sua! Sua, entendeu?

 – E-entendi. – Ramona respondeu, cabisbaixa. De fato estava se sentindo culpada por ter arrastado todos eles para aquela situação que parecia agora chegar a um ponto insustentável. Se morressem seria sim culpa dela, ela sabia, então, o que podia fazer era dar um jeito de que ninguém morresse ali e o único jeito de fazer isso era achando os benditos cristais.

Mas como fazer isso no escuro?

 – Agora estamos numa pior. – Zelda disse – Odeio admitir, mas eu só tinha aquele globo de luz e agora não temos meios de enxergar nada aqui dentro. Alguém tem alguma sugestão ou podemos nos sentar e esperar o vulcão explodir e encher essa caverna com lava fervente?

Snake não pensou duas vezes. Era hora de bancar o herói, mas em vez de colocar todos em risco, agora ele podia salvar o dia. Sua espada de luz estava presa à sua calça e ele a sacou. Nem Zelda e nem Ramona viram-no fazê-lo, mas quando ele a acendeu e tudo ficou iluminado, ambas tiveram de bater palmas.

 – Parece que não estamos tão perdidos, afinal! – Zelda disse, sorrindo para Snake – Um bom pirata sempre tem um truque na manga para qualquer ocasião!

 – Eu não sou um pirata, sou um caçador de tesouros. – Snake corrigiu.

 – Eu nunca vi uma arma como essa sua. – Zelda falou, olhando para a lâmina brilhante – É um artefato antigo, imagino.

 – Sim. – Ramona falou, adiantando-se – Snake a ganhou ao destruir um dos guardiões dourados de… como vocês chamam… da Cidade dos Deuses.

E com uma nova fonte de luz, eles seguiram em frente. Agora os tremores não eram mais violentos e repentinos. Eram mais como uma vibração constante, e a temperatura já estava sensivelmente mais alta – alta demais. Quase tão alta quanto na chaminé do vulcão, e aquilo definitivamente não era bom.

 – Só eu estou sentindo esse calor? – Ramona perguntou.

 – Eu temia que fosse só eu. – disse Snake – Zelda?

 – Suando em bicas, se querem saber. Melhor acharmos logo os cristais ou vamos ter uma bela aula de como as coisas funcionam no interior do mundo.

Desceram ainda mais. Depois de uma curva, porém, depararam-se com um paredão de rocha bloqueando o túnel. E o calor estava ficando insuportável.

 – Acho que a lava está lentamente descendo pelas cavernas por onde viemos, isso explica o calor estar aumentando tanto. – Zelda disse – Nossa única chance é abrir caminho por essa parede de pedra.

 – Mas e se do outro lado houver uma câmara cheia de magma? – Snake indagou, alarmado.

 – Bem, nesse caso será o fim. – Zelda disse, séria – Mas seja o que for, derrube essa parede, porque pode ser nosso fim de um jeito ou de outro.

Snake não pensou duas vezes. Atacou o paredão de rocha com sua espada e fez vários cortes em todas as direções, marcando a pedra com linhas incandescentes onde a lâmina a havia cortado.

Em instantes toda a parede desmoronou, revelando uma passagem livre adiante – e o melhor de tudo: um ar fresco invadiu a caverna empurrando o calor para longe. Pelo que tudo indicava, não havia magma nas câmaras adiante, então era seguro prosseguir.

Antes que dessem dez passos, porém, perceberam que além do brilho da espada de luz, um brilho avermelhado começava a encher o túnel atrás deles. Zelda estava certa: a lava do vulcão estava subindo e inundando as cavernas adjacentes à caldeira e, no momento, estava indo na direção deles, ganhando velocidade com a descida, ameaçando torrá-los vivos.

 – Só tem uma coisa a fazer. – Snake disse – Vão em frente que eu vou resolver isso.

E ele deu um salto cravando a espada de luz no teto do túnel, que rachou e provocou um desmoronamento que obstruiu totalmente o caminho por onde haviam vindo, separando-os da lava fervente mas tirando-lhes o que parecia ser a única rota para voltar à superfície.

 – Muito bem, Snake. – Zelda exclamou – Ao menos agora a lava não vai nos alcançar… ao menos até que a pressão seja tanta que exploda a barricada que você fez. Vamos correr antes que seja tarde!

E correram.

Desceram e subiram túneis sinuosos, seguindo sempre pelas bifurcações que apontavam para baixo, pois Ramona suspeitava que os cristais de mana existissem apenas nas regiões mais profundas da terra. Após muitas subidas e descidas e curvas para a direita e esquerda, finalmente chegaram a uma enorme caverna iluminada.

 – Luz! – exclamou Ramona – Achamos! Luz! Luz azul! Só pode ser…

 – O lendário Império do Povo de Cristal! – Zelda exclamou, empolgada – Eu achei que fosse só uma lenda!

 – Povo de cristal? – Ramona parou – Nunca ouvi falar.

 – Não importa. – Zelda disse – Se sobrevivermos eu falo sobre eles.

Era uma caverna toda feita de cristal azul brilhante, com colunas trabalhadas se perdendo no alto teto. Devia ter uns duzentos metros de extensão e uns trinta de altura e era tão clara que Snake desligou sua espada para admirar seu brilho.

 – Eu nunca imaginei que houvessem tantos cristais de mana em um só lugar! – Ramona exclamou – Snake, por favor, corte um pedaço daquela estátua ali, só preciso de um fragmento para poder fazer a transferência de energia.

Snake outra vez sacou a espada de luz e, com todo o cuidado, cortou uma ponta da pedra azul, entregando-a em seguida para Ramona.

 – Isso vai servir. – ela comentou – Sentem-se porque eu preciso de uns minutos para fazer o trabalho.

Snake e Zelda sentaram-se escorados nas colunas enquanto Ramona, com a pedra entre as mãos, começou a recitar palavras em voz baixa que não pareciam fazer sentido algum. Aos poucos o pedaço de cristal em sua mão brilhou com mais força, sobrepujando o brilho de todo o salão, e eles puderam sentir a enorme energia acumulada sendo transferida.

 – Que garota estranha é essa? – Zelda perguntou a Snake em voz baixa – Ela tem mais conhecimentos de magia do que qualquer mestre da arte que eu conheci em toda a minha vida!

– Eu sei. – Snake disse – Quando esse mundo era mais jovem ela pertencia certamente a alguma elite de magos ou coisa do tipo…

 – Bom, não importa. O que me importa é como vamos sair daqui depois que ela terminar.

 – Não vai ser problema. – Snake disse, rindo – Ela é capaz de coisas incríveis, você vai ver.

Demorou uns vinte minutos. A caverna de cristal, aparentemente, não sofria os abalos da erupção vulcânica, provavelmente era mantida estável por um delicado equilíbrio de força mágica, então eles sentiam-se seguros de sentar e assistir Ramona fazer o ritual de transferência de energia com toda a calma enquanto recitava seu encantamento numa língua que certamente não era ouvida em Thanisya há muito, muito tempo.

Dentro em pouco, o cristal brilhou nas mãos da jovem com mais intensidade e depois apagou-se, ficando preto. Ela largou-o no chão e disse, sorrindo para eles:

 – Desculpem a demora, meus queridos amigos, agora estamos prontos para ir embora!

Ela estava incrível! Seu cabelo, seus olhos e suas roupas brilhavam, era como se toda a força do mundo emanasse dela, ela estava encharcada de pura magia, quinhentos mil anos de energia mágica gastos recuperados em menos de meia hora e o resultado era fantástico. Snake estava boquiaberto e Zelda também não conseguia parar de olhar Ramona, que a ela parecia uma espécie de divindade saída de alguma história louca de marinheiro.

 – Antes de irmos, Snake, pegue quanto mais desses cristais pudermos carregar. – Zelda disse – Algo tão poderoso deve também ser muito valioso!

 – Posso cortar um pouco deles para você se quiser. – Snake disse – Mas asseguro que mesmo os magos mais poderosos do mundo não dão valor algum a eles. São só pedras decorativas, ninguém conhece suas propriedades, ao menos até onde eu sei.

 – Não importa. – Zelda disse – Eu conheço um tesouro quando vejo um e isso aqui é mais valioso do que qualquer coisa que eu já vi. Sinto cheiro de fortuna nessa caverna e não vou sair daqui de mãos abanando!

Snake e Ramona se entreolharam sem dizer nada.

O caçador de tesouros usou mais uma vez de sua espada e cortou um belo pedaço de cristal, quase metade da cabeça de uma estátua de aparência draconiana que brotava da parede e, após picá-la em pedaços menores, disse à capitã pirata:

 – É tudo seu, se considera isso tão importante. – e, olhando para Ramona – Podemos ir agora?

 – Sim, vamos! – ela disse, rindo – Mas tem um probleminha.

 – Que probleminha? – Snake e Zelda indagaram ao mesmo tempo.

 – Eu havia pensado em nos teletransportar até a superfície, mas como não consigo nem imaginar onde é que estamos exatamente, não conseguiria nos tirar daqui. O teletransporte só funciona quando se tem uma noção de onde se está e de onde se quer ir.

 – Então você está dizendo que teremos que sair por outro caminho? – Zelda perguntou, mal-humorada – Que maravilha!

Se a caverna de cristal estava a salvo dos terremotos e erupções vulcânicas, aquilo foi demais para ela. Um violento tremor sacudiu tudo, fazendo as colunas azuis se estilhaçarem e o teto começar a ruir, ameaçando soterrar os três ali mesmo. O chão abriu-se em enormes fendas e pela entrada e por várias outras rachaduras, lava fervente começou a entrar, deixando-os ilhados em um pedaço de rocha enquanto todo o resto era tomado de rocha fundida. O cristal das paredes parecia suportar bem o calor, mas também parecia aumentar a intensidade do magma, que começou a borbulhar com violência, ameaçando engolir os três.

 – Que legal… – Zelda comentou – Agora estamos fe—

Um estrondo e um clarão se seguiram. Ramona havia feito algum tipo de mágica que explodiu a parede oposta da caverna, abrindo uma grande fenda e revelando outro espaço oco no âmago da montanha, só que dessa vez de rocha vulcânica e não de cristais mágicos azuis. A lava prontamente começou a fluir para aquele novo espaço e a pressão e o calor fizeram com que a rocha onde Snake, Zelda e Ramona estavam flutuasse como uma espécie de jangada em direção ao escuro desconhecido.

 – A lava flui em direção à superfície. – Zelda disse – Vai procurar um meio de alcançar uma abertura e, se não achar, vai explodir uma para nós.- Eu imaginei isso. – Ramona disse – Eu vou facilitar a nossa vida e criar uma barreira protetora, para nos manter mais frescos e protegidos dos respingos da lava.

E assim fez. Envolveu-os em uma bolha branca-perolada brilhante e eles navegaram em sua jangada de basalto pelo rio de lava que serpenteava ferozmente por túneis que pareciam não ter fim. A velocidade parecia crescer à medida em que percorriam caverna após caverna, até que de repente o rio de lava precipitava-se num imenso vazio. Os três não conseguiam nem gritar ou conversar, concentravam-se no que vinha a seguir e tanto Snake como Zelda agora tinham como única escolha confiar em Ramona com seus novos poderes mágicos para salvá-los de uma morte infeliz no interior do planeta.

A jangada de basalto caiu no vazio por alguns minutos durante os quais seus três ocupantes agarraram-se às suas bordas sem ousar se mexer ou falar, até acomodar-se sobre outro rio de lava, essa muito mais densa do que aquela em que antes flutuava e movia-se com muito menos velocidade.

 – Devemos ter alcançado uma piscina de magma. – Zelda disse – Estamos no limite entre a crosta de Thanisya e seu interior pastoso e quente. Devemos ter mergulhado a uma grande profundidade sem perceber, pois até onde sei isso fica a muitas milhas da superfície.

 – Isso significa que estamos presos aqui embaixo? – indagou Snake, meio sem saber o que pensar.

 – Mesmo se eu quisesse ser otimista, a resposta seria a mesma: sim, estamos presos aqui embaixo.

 – Ramona, você não pode fazer nada? – Snake perguntou.

 – Acho que qualquer tentativa sem saber sequer ao certo onde estamos seria suicídio.

 – Que ótimo! – Zelda suspirou, sarcasticamente – Se nem seus poderes podem nos salvar, estamos de fato condenados!

E os três, deprimidos pela situação, sentaram-se juntos no centro de seu barco de pedra improvisado e deixaram-se levar pela corrente de magma, na esperança de que o acaso os tirasse daquela enrascada.

CAPÍTULO 6 (Parte 1) – O vulcão

 – Bem. – disse Ramona após terminarem a refeição – Partiremos assim que você estiver pronto.

Snake sentia-se cheio. Fazia tempo que não comia tão bem e aquilo o deixara pesado e sonolento, mas não podia demonstrar fraqueza diante da garota. Era contra seus princípios de aventureiro deixar claro que não estava pronto, então resolveu ganhar tempo:

 – Que acha de voltarmos à praia? Quero ver se por acaso minha mochila foi trazida pela maré.

 – Você perdeu sua mochila de novo? – Ramona indagou.

 – Na verdade eu a joguei fora enquanto estava no mar. Achei que era só peso extra, mas agora estou sentindo falta dela.

Ramona suspirou e abanou a cabeça desanimada.

 – Tudo bem, vamos.

E eles tornaram à praia, saindo de sob a sombra das palmeiras. Snake ia na frente, olhando para todos os lados como se procurasse realmente sua mochila, apesar de saber que ela certamente não teria sido jogada à praia pelas ondas do mar, pois a maré estava baixando quando chegaram e a maré alta demoraria até a noite para acontecer, mas precisava fazer a digestão antes de seguir para a agradável jornada de escalada até o vulcão.

Estava andando já há alguns minutos, olhando para o mar e para o chão quando de repente sentiram uma presença. Uma presença daquelas que se sente de longe, nem boa e nem má, apenas um indício de que havia alguém lá. Continuaram andando mais alguns momentos até que uma voz feminina os interrompeu:

 – Vão a algum lugar?

Era uma mulher de seus vinte e cinco, trinta anos, vestindo preto, com cabelos pretos e brancos – Snake duvidava que aquilo fosse natural -, que os encarava de pé, plantada na areia como uma árvore. Sua expressão era impassível como pedra e ela não parecia feliz em vê-los ali.

 – Quem são vocês e o que querem nessa ilha? – ela perguntou, demonstrando que queria urgentemente uma resposta e fazia questão de que fosse satisfatória.

 – Sou Snake, de Ontherocks, no Reino do Oeste, caçador de tesouros, e esta… – e já ia apresentar Ramona quando ela o interrompeu:

 – Ramona Lockhart, de Lawrenshia, arquimaga honorária da Escola dos Sete Elementos. E você, quem é?

A mulher parou por um momento como que refletindo sobre o que lhes haviam dito e logo falou:

 – Ontherocks eu sei onde fica… é um vilarejo no meio do nada e que dá para contar as casas nos dedos, se bem sei. Conheço sua reputação de saqueador de tumbas, senhor Snake. Mas Lawrenshia eu nunca ouvi falar e nem essa tal Escola dos Sete Elementoss. Até porque sempre achei que os elementos da magia fossem seis.

 – Fica muito longe. – Ramona tentou consertar – Você provavelmente nunca ouviu falar. Quase ninguém conhece.

 – Eu imagino. – a mulher respondeu, sarcástica – Bem, não importa. O que estão fazendo aqui?

 – Estamos perdidos. – disse Snake – Somos náufragos, fomos jogados aqui e agora estamos em busca de um meio de dar o fora.

 – Que ótimo! – a mulher disse – Eu tenho um barco ancorado numa baía a duas horas de caminhada daqui. Se quiserem partir, posso levá-los até o porto comercial mais próximo. Parto ao anoitecer.

 – Bem, acho que não estaremos de volta até o anoitecer. – Snake disse – Temos que procurar uma coisa aqui antes…

 – Ah, então o Senhor Caça-Tesouros veio aqui com mais alguma coisa em mente? – ela disse, rindo – Sabia que não estava perdido, estava procurando algo valioso para roubar e vender!

 – Na verdade, não. – disse Ramona, apelando para a verdade – O que estamos procurando são cristais azuis de um tipo bem especial que podemos talvez encontrar dentro daquele vulcão.- e apontou para a montanha fumegante -Vamos ir até lá para ver se encontramos algum.

 – Cristais, huh? – a mulher parecia agora verdadeiramente curiosa – E quanto valeriam esses cristais? Dez mil moedas de ouro? Cem mil?

 – Cinco moedas de prata, no máximo. – Snake disse – Já vi alguns por aí e eles não valem grande coisa pois não têm serventia alguma.

 – E por que vocês iriam querer entrar na cratera de um vulcão por míseras cinco moedas de prata?

 – É porque para mim um desses cristais seria valioso. – Ramona respondeu – Preciso disso para fazer um encantamento de suma importância.

A mulher ponderou por um momento. Parecia interessante demais para deixá-los ir sozinhos, então ela propôs:

 – Posso ir com vocês? Isto é… se quiserem companhia.

 – Claro! – responderam Snake e Ramona ao mesmo tempo (ambos perceberam que para uma missão com tamanho risco, ainda mais sem os poderes mágicos da garota, qualquer ajuda mesmo que de uma desconhecida poderia ser valiosa).

 – Deixem-me apresentar. – a mulher falou – Sou Zelda Lorraine Eckhart, capitã do navio pirata Dragão dos Mares.

 – Muito prazer. – Snake disse, sorrindo.

 – Com prazer é sempre mais caro. – respondeu Zelda, rindo – Vamos partir agora mesmo, se quisermos estar de volta ainda hoje.

 – Por mim está ótimo. – Ramona concordou – E, Snake, pare de ser tão gentil com ela, pois eu fico com ciúmes.

 – Não precisa ter ciúmes, docinho. – a capitã pirata falou, sorrindo amigavelmente – Não gosto de homens.

Snake e Ramona se entreolharam, mas a senhora Lorraine completou:

 – Nem de mulheres. Eu só gosto do mar, pois ele é o único que me entende.

 – Ah, bom! – exclamaram os dois em tom de alívio.

 – Vamos. – Zelda urgiu, já embrenhando-se no bosque como se soubesse o caminho – A escalada vai ser difícil.

 – E você não vai levar equipaamento? – Snake perguntou.

 – E você vai? Não vejo nenhuma mochila em suas costas, o que nos põe em situação de empate. – Zelda respondeu, encerrando a questão. Ramona não conseguiu conter uma risadinha.

A escalada até a cratera do vulcão não era especialmente difícil. O terreno não era muito íngreme e Zelda parecia conhecer bem o lugar, algo que Snake e Ramona questionaram em silêncio a princípio mas decidiram que não era relevante comentar. Demoraram três horas para ir da praia até o topo e fizeram todo o caminho em silêncio. Era um acordo não verbal que nenhum dos três ousava quebrar, talvez pela expressão excessivamente séria de Zelda ou pelos pensameentos inquietos de Snake ou pela muda expectativa de Ramona em reaver seus poderes mágicos, mas ninguém parecia ter o que falar.

Quando estavam a pouco menos de duzentos metros da cratera, foi Snake quem interrompeu o som da brisa e perguntou:

 – Senhorita Zelda, posso lhe fazer uma pergunta?

A mulher, que estava alguns passos adiante parou e se virou para ele, com uma expressão de poucos amigos. Depois de dois segundos ela abrandou o rosto e sorriu, dizendo:

 – Achei que nunca fossem dizer nada. Já estava ficando cansada de andar sem conversar. Pergunte o que quiser.

Ramona ficou com aquela expressão de “olha bem o que você vai dizer” mas Snake ignorou. Sua curiosidade o forçava a perguntar e foi o que ele fez:

 – Você parece conhecer bem essa ilha, tanto que nos trouxe até aqui em cima por um caminho que pareceu um passeio no parque. O que você estava fazendo aqui quando nos encontramos?

 – Ah, sim! – Zelda disse, com um tom de voz que parecia zangado mas que conflitava com o ar divertido de seu rosto – Vim até aqui enterrar um tesouro, como fazem os piratas.

 – Um tesouro? – Ramona intrometeu-se – Posso saber que tipo de tesouro seria?

 – Pode. – Zelda disse, rindo com gosto – Mas se você ficar sabendo eu vou ter que te matar.

Snake, que não se intimidava com bravatas por estar demasiadamente acostumado a discussões em tabernas e coisas do tipo, insistiu por sua própria conta e risco:

 -Pode nos contar, Zelda, não se preocupe. Não queremos seja lá o que for que você tenha enterrado. É só curiosidade. E além do mais, nós lhe dissemos o que estamos procurando. Fomos honestos com você, você bem que poderia retribuir, não é?

A capitã pirata soltou uma gargalhada. Ela realmente achara graça do que Snake dissera. Ser honesta não era uma de suas virtudes, ainda que soubesse usar de sinceridade com quem a merecesse. Mas ela era uma pirata e piratas não devem sair por aí contando seus segredos, pelo bem de suas próprias vidas.

 – Eu já retribuí sua honestidade vindo com vocês para ajudá-los em sua pequena missão. – ela disse – Não abuse da minha boa vontade pois eu não fiz minha fama na pirataria às custas de cortesia e boas maneiras, OK?

Snake engoliu em seco e se calou. Continuaram andando como se aquela conversa não tivesse ocorrido até chegar à borda da cratera. Saía uma enorme coluna de vapor lá de dentro, indicando que o vulcão estava bem acordado e o calor na borda era muito mais intenso do que na praia, mostrando que ali os fogos internos do planeta afloravam com toda a sua força.

 – Pelo que sei de geologia, – Zelda comentou sem se virar para trás – veios minerais com alinhamentos cristalinos regulares são encontrados bem lá no fundo, na caldeira do vulcão. Teremos de descer muito para encontrar seus cristais, senhorita Ramona, e espero que tenha consciência de que se cometer um erro sequer, vai acabar tomando um banho de lava derretida lá no fundo do vulcão ou sendo atingida por alguma pedra ou coisa do tipo. E você, Snake, já vi que você tem cara de que gosta de bancar o herói… saiba que vulcões não são brinquedos e nem lugares para principiantes fazerem loucuras para impressionar garotas, certo?

Snake e Ramona examinaram a superfície da chaminé vulcânica. Era lisa demais, regular demais e íngreme demais. Era impossível descer sem algum tipo de equipamento de escalada e, pelo que estava bem claro, ninguém havia trazido nada.

 – Como vamos chegar lá embaixo? – Snake perguntou para Ramona – Tem alguma ideia?

 – Se eu tivesse meus poderes, seria uma questão de estalar os dedos e pronto. – ela respondeu – Mas infelizmente é por não ter meus poderes que estamos aqui…

Zelda olhou para os dois com desprezo e disse:

 – Já vi que vocês subiram aqui sem sequer um plano de como chegar lá embaixo. Tudo bem, vocês estão com sorte de eu estar com vocês. Vou mostrar-lhes um dos meus segredos para o sucesso, mas quero que prometam que nunca vão contar isso a ninguém, certo?

Ambos concordaram. Zelda sorriu satisfeita. Enfiando dois dedos na boca, soltou um assobio tão alto que pareceu percorrer toda a ilha e espalhar-se pelo mar em volta. A princípio nada acontceu, mas logo Snake e Ramona viram, saindo da baía onde o barco dela estava ancorado um pequeno ponto luminoso que parecia voar muito rápido. Fosse o que fosse, vinha direto na direção deles e em grande velocidade.

 – O que é aquilo? – indagou Ramona, curiosa – O que vem vindo ali?

 – É um tapete mágico. – Zelda respondeu, acompanhando o objeto com o olhar a medida em que se aproximava – O encontrei em uma ruína antiga na costa do Continente Sul. Eu o uso para me deslocar por lugares em que meu navio ou minhas próprias pernas não possam me levar.

 – Um tapete mágico? – Snake exclamou – Eu achei que eles fossem apenas histórias para crianças!

 – Bem, os thanisyanos nunca foram um povo muito criativo em matéria de lendas… – Ramona ponderou – No meu tempo usávamos tapetes flutuantes para transporte dentro de grandes edifícios, levando cargas e pessoas de um andar a outro ou mesmo por distâncias maiores dentro de cidades ou grandes fortalezas. Não sabia que havia algum funcioonando depois de tanto tempo!

 – Você já viu um desses? – Zelda perguntou assim que o tapete parou diante deles, ondulando suavemente a apenas vinte centímetros do chão, quase tão plano e firme como se estivesse apoiado sobre algo sólido.

 – Sim. – Ramona respondeu – Eram bem comuns no meu tempo.

 – Você deve ser bem velha para ter tido essa oportunidade. – Zelda comentou, sarcástica – Até onde sei tapetes voadores não são vistos por olhos mortais há mais de 300 mil anos!

 – Bem, há 500 mil anos eram bem comuns. – Ramona falou, ignorando a piadinha sem graça.

 – Você está me dizendo que tem 500 mil anos de idade? – Zelda quase engasgou.

 – Na verdade se descontar o tempo que fiquei congelada eu tenho apenas vinte e três, mas se contarmos o tempo em que fiquei presa então tenho quinhentos mil e vinte e três anos.

 – Mas com corpinho de vinte e dois! – Snake comentou, dando risada.

 – Certo, certo. Já vi que a história de vocês é bem cabeluda, então nem vou perder tempo querendo saber dos detalhes. Algo me diz quue quanto menos eu souber melhor vai ser, então, todos a bordo!

Ramona e Snake sentiram-se aliviados pela conversa ter terminado ali. Ambos subiram no tapete conforme Zelda lhes indicara e se prepararam para a descida pela chaminé fumegante, direto para o coração ardente do vulcão ativo.

A descida era suave, mas o calor crescia cada vez mais e todos estavam suando em bicas. O tapete começava a oscilar, dando sinais de que estava atingindo seu limite de quanto calor podia suportar, mas Zelda forçou-o mais um pouco até alcançar umaa reentrância na lateral da caverna cilíndrica que era a caldeira do vulcão. A entrada da cratera era agora um pequeno disco enevoado lá no alto, e eles estavam a apenas algumas dezenas de metros do magma fundido. O tapete pairou sobre um platô rochoso que dava para uma caverna escura que parecia entrar bem fundo na montanha.

 – Daqui seguimos a pé. – Zelda disse – Se o tapete ficar aqui embaixo por mais tempo ele vai queimar e não teremos meios de subir de volta. Desçam.

Snake e Ramona saltaram fora do tapete voador. Zelda também o fez.

A capitã pirata fez um sinal com a mão e o tapete subiu rapidamente, perdendo-se ente as nuvens de vapor. Agora tinham que procurar – e torcer para o vulcão não entrar em erupção com eles lá dentro.

CAPÍTULO 5 (parte 1): A CAPITàPIRATA

Image – Bem. – disse Ramona após terminarem a refeição – Partiremos assim que você estiver pronto.
Snake sentia-se cheio. Fazia tempo que não comia tão bem e aquilo o deixara pesado e sonolento, mas não podia demonstrar fraqueza diante da garota. Era contra seus princípios de aventureiro deixar claro que não estava pronto, então resolveu ganhar tempo:
– Que acha de voltarmos à praia? Quero ver se por acaso minha mochila foi trazida pela maré.
– Você perdeu sua mochila de novo? – Ramona indagou.
– Na verdade eu a joguei fora enquanto estava no mar. Achei que era só peso extra, mas agora estou sentindo falta dela.
Ramona suspirou e abanou a cabeça desanimada.
– Tudo bem, vamos.
E eles tornaram à praia, saindo de sob a sombra das palmeiras. Snake ia na frente, olhando para todos os lados como se procurasse realmente sua mochila, apesar de saber que ela certamente não teria sido jogada à praia pelas ondas do mar, pois a maré estava baixando quando chegaram e a maré alta demoraria até a noite para acontecer, mas precisava fazer a digestão antes de seguir para a agradável jornada de escalada até o vulcão.
Estava andando já há alguns minutos, olhando para o mar e para o chão quando de repente sentiram uma presença. Uma presença daquelas que se sente de longe, nem boa e nem má, apenas um indício de que havia alguém lá. Continuaram andando mais alguns momentos até que uma voz feminina os interrompeu:
– Vão a algum lugar?
Era uma mulher de seus vinte e cinco, trinta anos, vestindo preto, com cabelos pretos e brancos – Snake duvidava que aquilo fosse natural -, que os encarava de pé, plantada na areia como uma árvore. Sua expressão era impassível como pedra e ela não parecia feliz em vê-los ali.
– Quem são vocês e o que querem nessa ilha? – ela perguntou, demonstrando que queria urgentemente uma resposta e fazia questão de que fosse satisfatória.
– Sou Snake, de Ontherocks, no Reino do Oeste, caçador de tesouros, e esta… – e já ia apresentar Ramona quando ela o interrompeu:
– Ramona Lockhart, de Lawrenshia, arquimaga honorária da Escola dos Sete Elementos. E você, quem é?
A mulher parou por um momento como que refletindo sobre o que lhes haviam dito e logo falou:
– Ontherocks eu sei onde fica… é um vilarejo no meio do nada e que dá para contar as casas nos dedos, se bem sei. Conheço sua reputação de saqueador de tumbas, senhor Snake. Mas Lawrenshia eu nunca ouvi falar e nem essa tal Escola dos Sete Elementoss. Até porque sempre achei que os elementos da magia fossem seis.
– Fica muito longe. – Ramona tentou consertar – Você provavelmente nunca ouviu falar. Quase ninguém conhece.
– Eu imagino. – a mulher respondeu, sarcástica – Bem, não importa. O que estão fazendo aqui?
– Estamos perdidos. – disse Snake – Somos náufragos, fomos jogados aqui e agora estamos em busca de um meio de dar o fora.
– Que ótimo! – a mulher disse – Eu tenho um barco ancorado numa baía a duas horas de caminhada daqui. Se quiserem partir, posso levá-los até o porto comercial mais próximo. Parto ao anoitecer.
– Bem, acho que não estaremos de volta até o anoitecer. – Snake disse – Temos que procurar uma coisa aqui antes…
– Ah, então o Senhor Caça-Tesouros veio aqui com mais alguma coisa em mente? – ela disse, rindo – Sabia que não estava perdido, estava procurando algo valioso para roubar e vender!
– Na verdade, não. – disse Ramona, apelando para a verdade – O que estamos procurando são cristais azuis de um tipo bem especial que podemos talvez encontrar dentro daquele vulcão.- e apontou para a montanha fumegante -Vamos ir até lá para ver se encontramos algum.
– Cristais, huh? – a mulher parecia agora verdadeiramente curiosa – E quanto valeriam esses cristais? Dez mil moedas de ouro? Cem mil?
– Cinco moedas de prata, no máximo. – Snake disse – Já vi alguns por aí e eles não valem grande coisa pois não têm serventia alguma.
– E por que vocês iriam querer entrar na cratera de um vulcão por míseras cinco moedas de prata?
– É porque para mim um desses cristais seria valioso. – Ramona respondeu – Preciso disso para fazer um encantamento de suma importância.
A mulher ponderou por um momento. Parecia interessante demais para deixá-los ir sozinhos, então ela propôs:
– Posso ir com vocês? Isto é… se quiserem companhia.
– Claro! – responderam Snake e Ramona ao mesmo tempo (ambos perceberam que para uma missão com tamanho risco, ainda mais sem os poderes mágicos da garota, qualquer ajuda mesmo que de uma desconhecida poderia ser valiosa).
– Deixem-me apresentar. – a mulher falou – Sou Zelda Lorraine Eckhart, capitã do navio pirata Dragão dos Mares.
– Muito prazer. – Snake disse, sorrindo.
– Com prazer é sempre mais caro. – respondeu Zelda, rindo – Vamos partir agora mesmo, se quisermos estar de volta ainda hoje.
– Por mim está ótimo. – Ramona concordou – E, Snake, pare de ser tão gentil com ela, pois eu fico com ciúmes.
– Não precisa ter ciúmes, docinho. – a capitã pirata falou, sorrindo amigavelmente – Não gosto de homens.
Snake e Ramona se entreolharam, mas a senhora Lorraine completou:
– Nem de mulheres. Eu só gosto do mar, pois ele é o único que me entende.
– Ah, bom! – exclamaram os dois em tom de alívio.
– Vamos. – Zelda urgiu, já embrenhando-se no bosque como se soubesse o caminho – A escalada vai ser difícil.
– E você não vai levar equipaamento? – Snake perguntou.
– E você vai? Não vejo nenhuma mochila em suas costas, o que nos põe em situação de empate. – Zelda respondeu, encerrando a questão. Ramona não conseguiu conter uma risadinha.

CAPÍTULO 4: NÁUFRAGOS

Após alguns minutos procurando por sua mochila, Snake a achou. Por sorte não havia se aberto e tudo estava onde deveria estar. Colocou sua espada de luz lá dentro, tomando o cuidado de enrolá-la em um casaco para evitar que se danificasse ou ligasse acidentalmente em caso de uma batida ou sacudidela mais forte.
 – Está pronto? – Ramona perguntou, impaciente – Acho que seria interessante irmos embora daqui, pois não sei se há outros como aquele por aqui.
 – Sim, sim. – Snake respondeu, colocando a mochila nos ombros – Estou mais do que pronto pra ir embora desse lugar.
 – Certo. – a garota disse – Agora faremos o seguinte: segure-se nas minhas costas com toda a sua força. Vou tirar-nos daqui.
Snake segurou-se nas costas dela como se quisesse abraçá-la, da forma como ela indicou. Ela lentamente foi subindo, e Snake foi se acomodando melhor à medida em que iam ganhando velocidade e altura.
 – Você já montou em um dragão? – Ramona quis saber – Ou em alguma coisa voadora?
 – Não. – ele respondeu – Mas ouvi muitas histórias sobre cavaleiros de dragões quando era criança.
 – Sabe como eles montam? – ela indagou.
 – Sim.
 – Então acomode-se nas minhas costas do mesmo jeito. Vai ser mais fácil pra você e menos desconfortável para mim, pode ser?
 – Tudo bem. – Snake disse, mudando de posição.
Agora ele estava montado na garota como se ela fosse um cavalo, ela estava voando na horizontal, era a forma mais fácil de qualquer maneira. Segurando-se na gola do casaco dela com uma das mãos, Snake ergueu o braço para o alto e gritou “uhuu” enquanto via o mar lá embaixo e o céu estrelado lá no alto.
 – Quer parar de bancar o Cavaleiro Voador? – pediu Ramona – Preciso me concentrar para carregar nós dois.
 – Ah, certo. – Snake disse, calando-se em seguida.
Voavam em alta velocidade por sobre o mar. A cidade em ruínas já ficara para trás há muito tempo, mas não havia nem sinal de terra firme. Snake não dissera para onde deviam ir e a garota parecia simplesmente ter escolhido um rumo ao caso e estar se dirigindo para lá, onde quer que fosse.
Snake estava cansado demais. Fora um dia longo, ele dormira mal e a batalha o havia esgotado, e seu peito doía ainda por causa da pancada. Acomodando-se outra vez, aninhou-se nas costas de sua amiga e dormiu o sono dos justos, totalmente alheio ao mar e ao céu que corriam velozes por eles enquanto cruzavam o ar mais rápido do que qualquer coisa voara nos céus de Thanisya nos últimos mil ou dois mil anos.
Foi acordado por uma turbulência, ficou aturdido por um momento e quase perdeu o equilíbrio. A garota, percebendo que ele estava acordado, disse-lhe:
 – Ainda bem que você acordou. Tenho uma péssima notícia para lhe dar.
 – O que foi? – indagou Snake, sonolento.
 – Lembra que eu disse enquanto estava presa que minha energia estava quase no fim?
 – Sim? – Snake sentiu um frio na espinha com aquela pergunta.
 – Pois é. Eu tinha menos energia do que eu pensava. Estou fazendo o máximo de esforço para nos levar até alguma ilha, se é que há alguma por aqui, pois não vou conseguir voar por muito mais tempo. Creio que antes que amanheça eu já tenha esgotado totalmente meus poderes.
 – E se não encontrarmos um lugar para pousar até amanhecer? – ele quis saber, ansioso – O que acontece então?
 – Bem, meu querido. – Ramona disse, rindo – Aí cairemos como duas frutas podres no mar. E acredite, cair dessa altura na água é a mesma coisa que cair sobre rocha sólida, então não vá fazendo planos sobre para onde vai nadar quando chegar lá embaixo.
 – Então se não acharmos uma ilha, estamos ferrados?
 – Isso é bem óbvio, mas fique tranquilo. Eu tenho um ótimo faro para me localizar. Apenas segure-se firme pois pode ser que daqui para diante a viagem não seja mais tão suave.
E de fato não foi. A todo momento Ramona perdia o controle e oscilava perigosamente, perdia e ganhava altitude, era como se ela estivesse lutando contra seus próprios limites para sustentar a ambos no ar. Se não achassem uma ilha ou qualquer lugar para pousar até amanhecer, estaria acabado.
Mas ao menos voara agarrado às costas de uma garota bonita, enfrentara e vencera um inimigo poderoso e visitara a Cidade Proibida sem enlouquecer ou morrer. Se é que aquilo tudo não era um delírio seu, mas não parecia ser…
Nenhum dos dois disse palavra alguma nas horas seguintes. Mudaram de rumo algumas vezes, Ramona parecia saber para onde estava indo, mas ele não tinha tanta certeza, pois se o mundo mudara em 500 mil anos, provavelmente as terras se moveram, sumiram ou apareceram onde não estavam antes.
 – Lá! – disse Ramona, de repente, quando a primeira claridade começava a surgir no horizonte – Uma ilha! Segure-se, pois vou acelerar ao máximo para chegarmos depressa!
E foi o que Snake fez, meio grogue, pois havia cochilado intermitentemente durante as horas em que estiveram voando, acordado a cada sacudida e turbulência, e agora não sabia divisar se estava dormindo ou acordado, mas conseguia ver ao longe uma pequena ilha com um vulcão no meio, soltando um pequeno fio de fumaça esbranquiçada.
Segurou-se com mais força e a garota empreendeu um esforço supremo para aumentar a velocidade. A ilha pareceu crescer pouco a pouco, mas a água e as ondas corriam velozmente por baixo deles numa velocidade impressionante. O vento assobiava nos ouvidos de Snake e ele agora começava a sentir uma certa insegurança sobre como seria o pouso depois daquela velocidade toda.
Quando faltavam menos de dois quilômetros, Ramona diminuiu a altitude do vôo e agora moviam-se a menos de cinco metros acima da água. O deslocamento de ar provocado pela sua passagem erguia uma coluna de água atrás deles que marcava seu rastro nas ondas, desenhando reflexos dourados e prateados no sol que começava a nascer.
 – Não aguento mais! – gritou Ramona – Salte agora!
Snake, sem pestanejar, soltou-se das costas dela e, na velocidade em que estava, mergulhou em ângulo aberto na água, mas não sem antes ricochetear três vezes dolorosamente em sua superfície como se fosse sólida.
A água estava gelada e Snake se sentia tonto e tinha certeza de que havia quebrado alguns ossos, mas não deu importância. Estava vivo, no meio do mar, e podia ver ao longe a ilha, que agora parecia muito mais próxima. A que distância, porém, ele não sentia-se em condições de estimar.
Olhou em volta em busca de Ramona, mas não a encontrou nem no ar e nem no mar. Onde diabos ela estava?
Será que não sabia nadar?
Droga! Snake sentiu que a havia perdido de novo. Será que ele era tão inseguro a ponto de sentir o peso da perda antes de haver evidências disso? Não, é que realmente ela havia sumido, evaporado no ar – e aquilo não era normal. Ela devia ter caído na água adiante, mas não conseguia vê-la. As ondas eram mais altas do que seu campo de visão, não podia ver longe na superfície e isso atrapalhava tudo.
 – Ramona! – gritou ele – Onde você está?
Nenhuuma resposta. Tentou fazer mentalmente o contato, mas tudo que ouviu foi o eco de seus próprios pensamentos.
Decidiu então nadar para a costa. Ela faria o mesmo, é certo. Se soubesse nadar. Ah, óbvio que sabia, pensou ele, se sabia voar, nadar seria certamente o de menos. Sem pensar em mais nada, começou a dar braçadas em direção ao oeste, com o sol aos poucos levantando-se atrás dele e azulando o céu, apagando as últimas estrelas e iniciando um novo dia.
Depois de meia hora dando braçadas, percebeu Snake que a ilha não ficara muito mais próxima e que ele estava cansado demais para continuar nadando. Se ao menos tivesse algum pergaminho mágico útil em sua mochila…
Fazendo um esforço para manter-se boiando enquanto tirava a mochila, Snake abriu-a acima da água – era impermeável – e, com uma das mãos vasculhou seu interior e constatou que haviam quatro pergaminhos mágicos dentro – dois eram os “Não Perturbe” e os outros dois ele não lembrava o que eram. Então ele tocou no rolo de pano onde estava sua espada e teve uma intuição. Poderia dar certo – se aquela coisa funcionasse na água, o que era de se admirar.
Desvencilhando-se da mochila, que revelava-se agora um tanto quanto inútil com seus pergaminhos e roupas, ficou apenas com a espada e deixou a bolsa boiar para longe.
Segurando-a acima da água, pressionou o botão e a lâmina saltou viva e forte como sempre. Agora era hora de testar. De onde vinha aquela intuição ele não sabia, mas se fosse boa estaria mais do que salvo. Quanto a Ramona, esperava sinceramente que ela tivesse tido algum tipo de intuição semelhante e também tivesse solucionado a questão de nadar até a costa. Decidiu não pensar nela naquele momento, tinha algo mais a fazer.
Movendo as pernas sob a água, virou-se de frente para o sol nascente e de costas para a ilha. Apontando a espada de luz para a luz do nascente, mergulhou-a na água. O efeito foi imediato. O calor da lâmina luminosa aqueceu a água rapidamente, criando uma explosão de vapor que o impulsionou para trás, exatamente como ele esperava. Mantendo a lâmina na mesma posição, ele percebeu que conseguia uma aceleração absurda daquela forma. A água evaporava abruptamente e empurrava a água mais fria ao redor para todos os lados. E ele era levado junto. Direto para a ilha.
Voltando a cabeça para trás, viu que agora movia-se quase tão rápido quanto Ramona se moveria voando em velocidade normal, e a ilha ia crescendo e crescendo, a medida em que se aproximava.
 – Incrível! – Starshyne exclamou – Quem diria que essa espada teria mais utilidades além de destruir coisas?
Em menos de cinco minutos ele cruzou a rebentação, sinal de que estava finalmente na praia. Desligou a espada e virou o corpo para ver a ilha onde agora havia finalmente chegado.
Ainda haviam cerca de cinquenta metros o separando da areia branca da praia. Era uma ilha belíssima, de árvores viçosas e com um grande vulcão. Não parecia ser habitada e tudo que era possível ver eram as aves marinhas indo de lá para cá a procura de comida, soltando seus tradicionais gritos.
Assim que colocou os pés em terra firme, Snake atirou-se na areia e dormiu um sono profundo, muito profundo, um sono de sonhos estranhos entremeados pelo rosto de Ramona e flashbacks dos momentos em que estiveram juntos. E pareceu uma eternidade o tempo que passou dormindo na praia, aquecido pelos raios do sol que logo secaram suas roupas e tornaram o sono mais confortável e revigorante.
Do meio de um sonho, uma voz familiar o chamou ao mundo real. A voz chamava seu nome. Era a voz de Ramona.
 – Acorda, Snake, é hora do almoço!
Quando ele abriu os olhos, viu o rosto da jovem tapando o sol do meio-dia e não pôde deixar de sorrir aliviado ao vê-la sã e salva – e seca! – em sua frente.
 – Você conseguiu chegar também… estou aliviado!
 – É óbvio que eu consegui chegar! Sem seu peso eu consegui voar até a costa e tudo que fiz foi esperar que chegasse. E você chegou tão exausto que nem me viu encostada naquela palmeira te esperando.
 – Então você viu como eu cheguei aqui. – Snake disse, levantando-se e juntando sua espada que estava caída a seu lado – Quem diria que essa coisa serviria como meio de transporte, afinal de contas!
 – Você estava tão compenetrado em se perguntar se eu estava morta no fundo do mar ou voando por aí que nem se deu conta de que eu sussurrei em seus pensamentos para usar a espada para dar impulso, não é?
 – Foi você? – ele pareceu surpreso.
 – Claro que sim! – Ramona disse, rindo – Quem mais teria boas idéias dentro dessa sua cabeça oca?
Se outra pessoa tivesse dito isso a Snake, certamente ele consideraria a maior das ofensas, mas vindo de Ramona, que estivera dentro de sua mente, não parecia tão mau e ele sabia que de certo modo era verdade. Ele não era lá muito esperto, sabia se virar mas não era um gênio. Ela, porém, sempre sabia a resposta para tudo, sempre tinha uma carta na manga ou uma estratégia para sair de uma situação difícil. Ele mal a conhecia e achava que sabia tudo sobre ela. Era como se sempre houvesse estado ao lado dela, como se houvesse encontrado sua metade que faltava… Ah, não, Snake disse a si mesmo, devia afastar de sua mente esses pensamentos! O amor, ainda mais a primeira vista, era a ruína dos aventureiros, todos diziam isso e ele sabia que era verdade. Já vira mais de um veterano de aventuras se acomodando em uma casa e vivendo uma vida sem graça e sem realizações por causa do amor. Não queria isso para si. Queria o mundo, queria os quatro horizontes como os limites de seu quintal e garota alguma iria tirar isso dele. Mas Ramona era incrível, e isso ele não podia negar.
– Como estão seus poderes? – Snake quis saber.
 – Zero. – ela respondeu – Não consigo fazer nem truques com cartas agora. Preciso de uma fonte de energia para poder recarregar, senão serei tão normal e comum quanto você sem sua espada e sem sua falta de bom senso.
 – Que tipo de fonte de energia? – Snake indagou, curioso.
 – Não sei se existe alguma do tipo que eu necessito. Não depois de 500.000 anos!
  – Que tipo de fonte?
 – Já ouviu falar de Cristais de Mana?
 – Que é isso? – Snake arregalou os olhos – É de comer?
 – Não. – ela respondeu, pacientemente – É um tipo de cristal que acumula energia mágica e que brota das entranhas do planeta, usávamos para recarregar nossos poderes. Eles eram escavados aqui em Thanisya no meu tempo e não havia mago que não tivesse pelo menos um desses de reserva.
 – Como são esses cristais? – ele perguntou – Já vi cristais de todos os tipos, já andei em cavernas algumas vezes. Pode ser que eu conheça isso;
 – São como cristais de quartzo na forma, mas emitem luz azul e são mornos ao toque. – Ramona explicou – Já viu algum?
Snake pensou um pouco. Sim, já havia visto alguns desses. Tanto em cavernas como em coleções de minerais em algumas academias de ciências mágicas, mas não sabia que podiam ser usados para recarregar energia.
 – Sim, sim. – Snake disse – São até bem comuns. Mas são apenas usados como itens decorativos e para fazer jóias.
 – Os magos dessa época não conhecem as propriedades desses cristais? – Ramona disse, surpresa – E como a magia pode subsistir sem Cristais de Mana?
 – Os magos recuperam suas energias consumindo poções. – Snake disse – Lojas de poções existem por toda parte. Pode ser que isso resolva seu problema.
 – Não, Snake, não resolve. – Ramona disse – Eu esgotei minha energia mágica além do limite do que uma poção pode curar, pois passei 500 mil anos sustentando um encantamento de animação suspensa e o que sobrou gastei trazendo a gente até aqui. Não sobrou nada. Poções só funcionam quando a energia mágica não é totalmente gasta, o que provavelmente jamais ocorreu com algum mago dessa época.
 – Já ocorreu sim! – Snake disse – Conheci um mago que perdeu os poderes permanentemente depois de voltar de uma viagem. Parece que ele enfrentou um dragão nas montanhas, no Reino do Oeste e a luta foi demais para ele.
 – Pois é. – Ramona disse – Se ele conhecesse a utilidade desses cristais, recuperaria sua capacidade mágica num piscar de olhos!
 – Então precisamos achar um cristal desses para que possamos sair dessa ilha! – Snake exclamou.
Ramona sorriu.
 – Sim, Snake, certamente há. Cristais de Mana são muito comuns onde há vulcões e geralmente é onde encontramos os maiores e mais fortes. Só tem um problema…
 – Qual? – Snake indagou (ele odiava “poréns”).
 – Teremos que entrar na cratera do vulcão e descer até achar os cristais, se houver algum!
 – Moleza! – Snake exclamou – Mas não agora, estou faminto demais para uma escalada.
 – Sabia que você mencionaria comida. – Ramona disse, rindo – Achei alguns Cubos de Alimento num dos bolsos. Coisa do meu tempo. Duas gotas de água em cada um e eles se transformam em comida da melhor qualidade!
 – E eles durariam 500 mil anos sem apodrecer?
 – Eu apodreci? – Ramona disse, fingindo sentir-se insultada – Óbvio que não, eles foram conservados junto comigo pelo mesmo encantamento que me sustentou desde aquele tempo até agora!
 – Então vamos ver esses tais Cubos de Alimento.
Ramona tirou quatro cubos amarelos do bolso e os estendeu para Snake. Ele os pegou e examinou cuidadosamente. Eram perfeitamente regulares, mas não pareciam feitos de nenhum material que ele conhecesse. Olhando para o mar, ele falou:
 – Se é de água que precisamos, aí tem um monte.
 – Só se quiser que a comida fique salgada como lágrimas de viúva. – Ramona disse, rindo – Precisamos de água doce para que dê certo. Vamos! Tem uma nascente aqui perto que achei enquanto você dormia.
E ela pôs-se a andar para dentro da mata de palmeoiras.
Snake a seguiu por alguns minutos. Não demorou até ouvir um marulhar de água correndo.
Era um olho d’água que brotava de uma rocha sombreada, e ao se aproximar, Snake viu que era água pura e cristalina.
Com sede, encheu as mãos em concha com a água fria da fonte e bebeu avidamente até saciar-se.
 – Eu precisava disso! – exclamou, feliz – A última coisa que bebi foi uma cerveja antes de deixar a costa e ir para a Cidade Proibida.
 – Tanto tempo assim? – Ramona indagou, julgando que ele havia percorrido uma grande distância para chegar às ruínas – Como sobreviveu?
 – Foram só quatro horas de barco. – Snake disse.
 – Você está dizendo que havia terra firme a quatro horas de barco da cidade e me fez voar a noite toda em mar aberto? – ela disse, indignada.
 – Você não me perguntou para onde ir. Quando me dei conta de que você não sabia para onde estava indo já estávamos longe demais para valer a pena dar meia-volta.
 – Tem razão. – disse ela – Eu devia ter te perguntado para onde devíamos ir, mas não o fiz. Erro meu, desculpa.
 – Tudo bem, erramos os dois. – Snake disse – Agora vamos comer porque estou faminto!
E colocaram os cubos amarelos sobre uma pedra limpa e pingaram algumas gotas de água em cima de cada um deles. Não demorou até que a mágica daquelas engenhocas trabalhasse e logo havia diante dos olhos extasiados de Snake uma refeição completa com carnes, frutas e até mesmo uma garrafa de vinho!
 – Isso é incrível! – Snake comentou – Nunca vi nada parecido com isso. Sempre soube que mágica não era capaz de criar comida.
 – E não é. – Ramona disse – Mas pode conservá-la e fazê-la adotar outras formas. Esses Cubos eram bem populares antigamente, mas pelo que parece o conhecimento de como fazê-los se perdeu.
 – É uma pena. – Snake comentou atacando um suculento pedaço de carne – Viria bem a calhar em viagens longas.
 – Pois é. – Ramona concordou – Não duvido que em algum lugar fora de Thanisya ainda existam, mas aqui acho improvável.
 – Fora de Thanisya? – Snake quase engasgou – Você quer dizer… no céu? Além das estrelas?
 – Não exatamente além das estrelas, mas em meio a elas. – a garota respondeu de boca cheia – Mas pensemos nisso outra hora, vamos comer e depois planejar nossa expedição ao vulcão.
 – Por mim está bem assim. – ele falou, dando um gole no vinho (que era o vinho mais saboroso que já havia provado) – De barriga cheia eu topo qualquer parada!
 – Mesmo se arriscar a tomar um banho de lava fumegante? – Ramona disse, rindo de verdade – Ou ter a chance de morrer esmagado por uma avalanche de pedras quentes? Ou cozinhar em fogo alto na caldeira de um vulcão ativo?
 – Parece um bom roteiro de férias. – o caçador de tesouros disse, fazendo gozação com a situação – Pode ser divertido até. Mas agora vamos conversar menos e comer mais, que tal?
Ramona não disse nada e encheu a boca com uma fruta grande e suculenta que Snake nunca havia visto. E comeram em silêncio, trocando olhares e sorrisos. Iria ser um longo dia, mas todos os dias de Snake eram longos, então, bem, não faria diferença.

CAPÍTULO 3, parte 2: QUERO MINHA ESPADA DE VOLTA, IMBECIL!

Snake e a garota tocaram o chão a prudentes duzentos metros de distância da grande área aberta onde a criatura de metal aguardava ansiosamente para terminar seu serviço.
– Vamos pegá-lo de surpresa. – disse ela – Você causou um belo estrago nele, agora é hora de terminá-lo.
– Eu realmente consegui estragar a couraça dele? – ele perguntou, incrédulo – Eu não estava vendo o que estava fazendo.
– Você quase arrancou um dos braços dele e abriu um rombo no peito. Nunca vi tantas fagulhas saindo de uma daquelas coisas desde que eu enfrentei um desses há muito, muito tempo. – ela disse.
– Você conseguiu derrubá-lo?
– Não. – ela respondeu com um tom desapontado – Me pegaram antes que eu pudesse… Foi quando me trancaram naquela coisa.
– Bem, vamos lá então. – Snake disse, decidido – Eu quero aquela espada de volta e quero também retribuir a pancada que ele me deu! Ainda está doendo, sabia?
– Você foi o primeiro a continuar inteiro após receber um golpe daqueles. – a garota disse – Lembro de um sujeito que levou um golpe igual e o tronco saiu voando enquanto a cabeça, os braços e as pernas ficaram girando no ar por uns 20 segundos… Foi bem triste de ver.
– Caramba! – Snake exclamou – Bem, eu estava furioso porque achava que ele tinha te matado… Acho que foi isso que me permitiu resistir, mas agora que tudo está bem, que força me salvaria de ser feito em pedaços por ele? E agora ele tem a sua arma de volta, pra ajudar!
– Eu estou com você agora, Snake. – disse ela – Ele não vai tocar um dedo sequer em você antes que façamos picadinho dele!
Confiante, Snake nem esperou a garota terminar de falar. Saiu correndo pela rua cheia de destroços em direção à clareira entre os edifícios onde seu oponente o esperava. A garota foi logo atrás, mas Snake não olhou para trás a tempo de ver que ela corria sem tocar o chão.
Mal Snake emergiu da escuridão entre os edifícios a coisa pareceu farejá-lo. Estiveram andando em círculos pelo lugar a sua procura e parecia ter meios de enxergar bem no escuro. Seus olhos vermelhos encontraram com os de Snake e, sem a menor cerimônia, disparou outra daquelas odiosas “flechas de luz”.
– Não hoje, grandão! – a voz da garota anunciou no mesmo instante – Escudo defletor!
Como que por mágica o feixe de luz fez uma curva abrupta a uns dez metros de onde Snake e a garota estavam, explodindo num dos edifícios à esquerda, fazendo parte de sua fachada desmoronar.
– Como fez isso? – Snake perguntou – Isso é mágica pura?
– Tipo assim. – ela disse – Agora vamos atacá-lo diretamente! Ao meu sinal, corra na direção dele e não se preocupe com nada, eu te dou cobertura!
Snake não conseguia imaginar o que poderia fazer de mãos limpas, mas se aquela garota podia fazer as flechas de luz do monstro de metal fazerem curvas no ar, podia também ajudá-lo a recuperar a espada e a derrubar aquela coisa.
A distância encurtava e o monstro – agora Snake conseguia ver claramente, pois a escuridão da noite que chegava rápido demais naquela cidade em ruínas. Ele conseguia ver os rasgos que fizera com a lâmina de luz no braço e no peito da armadura, um estrago bem grande para algo que diziam ser indestrutível. Quando Snake se aproximou o bastante da criatura, ouviu a garota dizer atrás dele:
– Agora salte e agarre o braço que segura a espada! Não faça perguntas!
Snake obedeceu. O monstro percebeu o que Snake tentou fazer, acendeu a lâmina da espada e Snake viu a luz ficar mais forte enquanto o braço descia procurando por sua cabeça para cortá-la fora. Com todas as forças, Snake saltou e agarrou-se no braço do monstro, forçando com os pés no peito dele para tentar manter o braço imóvel ou ao menos o mais parado possível.
Ele não sabia quanto tempo conseguiria segurar, ficara esperando que a garota lhe dissesse o que fazer a seguir, mas não podia virar a cabeça para procurar por ela. Estava ocupado demais tentando não ser fatiado e agarrado no braço do monstro que começou a sacudi-lo para tentar se soltar.
Então a voz dela soou, mas dentro da mente de Snake como antes de ela ser solta de sua prisão.
– Quando ele soltar a espada, agarre-a e corte a cabeça dele! Você terá pouco mais de quinze segundos para fazer isso!
Antes que ele pudesse perguntar como diabos ela pretendia fazer o homem de lata soltar a espada, o corpo de metal estremeceu e Snake ouviu um som de engrenagens rangendo e metal raspando em metal e a criatura ficou imóvel.
– Como diabos? – ele exclamou, incrédulo – Será que ele cansou?
De repente a mão do gigante abriu-se e a espada caiu no chão, a lâmina apagando-se com o impacto.
Prontamente Snake soltou-se do braço do monstro e agarrou a espada.
– Diga adeus, otário! – disse ele, pressionaando o botão no cabo e expandindo a lâmina de luz, que inundou a cena com seu brilho azul-amarelado – Te vejo no inferno!
Ele deu um salto para trás, jogou o braço para trás e saltou para diante completando o movimento em arco com uma precisão milimétrica, atingindo o gigante na junção entre a cabeça e o pescoço, exatamente na parte em que a armadura tinha uma falha e uma série de mecanismos estranhos ficavam à mostra.
O corte foi perfeito. Os olhos da coisa piscaram e se apagaram e a cabeça caiu para o lado. O corpo permaneceu de pé, inerte como uma estátua.
– Você não vai precisar disso no outro mundo. – ele disse, rindo – Durma bem, bicho feio.
– Um golpe perfeito! – a garota disse, colocando a mão no ombro de Snake – E você usou só três dos quinze segundos que tinha para executá-lo!
Ele deu um pulo de susto. Não havia percebido que ela estivera ali o tempo todo.
Estivera?
Não importava. O certo é que a coisa estava “morta” agora e ele tinha uma arma ímpar eu toda Thanisya – mais maravilhosa até do que as armas mágicas que haviam à venda nos grandes mercados do Reino do Norte ou as armas dos Quatro Grandes Reis do Mundo, senhores de todas as terras e que, tecnicamente, deviam ter as armas mais poderosas e incomuns. E, além da arma, parecia que ele agora tinha uma amiga.
Um pensamento veio-lhe à mente: o que ela iria fazer agora que estava livre?
Iria com ele pelo mundo em busca de tesouros, vivendo suas aventuras loucas e despreocupadas em troca de algumas peças de ouro e artefatos raros? Ou iria seguir seu próprio caminho sozinhaa, para tentar se encontrar, depois de 500 mil anos fora de cena?
– Não se preocupe, Snake. – disse ela – Eu fiz uma promessa enquanto estava presa naquele lugar: seguiria até o inferno aquele que me salvasse e o protegeria de todo o mal mesmo que à custa da minha vida.
– Isso é sério? – exclamou Snake – Me seguir… a toda parte?
– Se você quiser, é claro.
– Bem… – ele ponderou – Eu sempre viajei sozinho.
– Não quer minha companhia então? – ela disse, desapontada.
– Não é isso. – Snake disse, tentando consertar as coisas – É que nem sequer sei o seu nome ainda.
– Ramona Lockhart. – disse ela estendendo-lhe a mão de pele clara e de aparência aveludada – Nascida em Lawrenshia, uma terra muito longe daqui, muito além dos horizontes deste mundo azul.
– Ramona… – Snake disse – Se você for capaz de entender o fato de eu não estar acostumado a ter alguém do meu lado o tempo todo, se você conseguir aguentar minhas manias e não se importar de não ter um lugar certo para morar e um destino certo para seguir, então terei imenso prazer em ter você por perto.
– Então, para onde vamos agora, Sr. Herói? – Ramona disse, rindo.
– Não sei. – ele disse, lembrando-se – Me perdi nessas ruinas e não acho que consiga lembrar onde deixei o barco que usei para chegar aqui.
– Hello-o? – chamou-lhe atenção a garota de cabelos azuis – Eu sei voar, esqueceu?

SNAKEANDRAMONAAFTER

CAPÍTULO 2: FRACASSO, DOR, ÓDIO E VINGANÇA

snakewithsword
Snake segurou firmemente o cilindro metálico como se fosse o punho de uma espada e com o polegar procurou pelo botão que a voz da garota lhe indicara. Eventualmente encontrou-o e quase desmaiou quando viu um jorro de luz emanar da ponta do artefato e desenhar os contornos do fio de uma formidável arma – que parecia de metal mas era feita de luz, um tanto transparente e luminosa e ainda assim sólida ante o olhar estupefato do caçador de tesouros, que no mesmo instante percebeu que havia posto as mãos em um artefato de valor inestimável, muito melhor que as armas mágicas que eram vendidas mesmo nos mercados mais concorridos de Thanisya.

 – Snake, pare de admirar seu brinquedo e use-o. – a voz da garota soou outra vez, cheia de impaciência – Eu quero sair daqui de uma vez e dar um abraço apertado no herói que me salvou de minha prisão de 500 mil anos!
O corpo do sujeito estremeceu. Era um solitário, não era muito bem visto pelas pessoas – que o confundiam com um tipo de ladrão ou saqueador de tumbas, como já havia sido chamado por alguns – e a menção de ganhar um abraço de uma bela garota lhe soou estranha como estranhos são os presentes que caem do céu estrelado nas noites de sonho dos contos infantis.
 – Certo. Eu nem sequer sei seu nome ainda, mas aí vai! Liberte-se de sua prisão e venha para a luz, bela jovem de cabelos azuis!
 – Que lindo… – a voz dela disse, num tom meigo – Você tem a postura dos heróis dos mitos, dos heróis do meu tempo. Todos nessa época são como você?
 – Não. – ele respondeu num instante – A maioria das pessoas prefere viver vidas cômodas com as bênçãos da magia e nem se dão ao trabalho de sair e enfrentar o mundo. A maioria não aguentaria dez minutos fora dos muros de suas cidades pacatas sem uma tonelada de pergaminhos mágicos e itens encantados para protegê-los.
 – Mas você também os usa… – ela quis argumentar.
 – E eu lá sou idiota de desperdiçar aquilo que é útil? Sou um caçador de tesouros, não um louco suicida!
Dizendo isso, Snake segurou a espada de luz com as duas mãos acima de sua cabeça. Apesar de grande, ela não tinha peso, ele sentia quase como se ela fosse uma extensão de seus braços. Posicionou-se diante do bloco transparente que aprisionava sua nova amiga e gritou a plenos pulmões:
 – Eu vou CONSEGUIR!
E desferiu um golpe com a espada no enorme bloco adamantino. Não sentiu que era importante preservar a integridade da garota, como se algo em sua mente dissesse que fosse o que fosse não iria machucá-la e, portanto, não se deteve. Quando sentiu a quase ausência de peso transformar-se numa explosão de puro poder, empolgou-se e fez mais quatro cortes em ângulos diferentes. Saltou para trás e desligou o botão, retraindo a lâmina de volta à não-existência.
Por um momento absolutamente nada aconteceu.
O sol já se escondia por trás dos edifícios, anunciando o começo da noite. Snake nem se deu conta de quanto tempo se passou enquanto olhava para o bloco semitransparente inalterado diante de seus olhos.
Haveria falhado?
E se aquela arma maravilhosa não pudera libertar a jovem, o que mais poderia?
E o que aconteceria com ela? Não aguentaria mais 100 ou 1000 ou 10.000 anos. Ele sentia a urgência da situação e aquilo pesou sobre ele. O bloco não se alterou.
 – Ei? – ele tentou tocar a mente dela com a mente – Você está bem?
Nada. Só silêncio.
E Snake já não aguentava mais o silêncio. E então ele sentiu a revolta pelo fracasso, a sensação de impotência frente o inevitável. Que demônio construíra aquele caixão de vidro inquebrável? Que força no mundo poderia fazer algo tão resistente que nem mesmo a espada de luz divina que ele havia utilizado foi incapaz de arranhar?
 – Maldito seja! – berrou – Maldito seja mil vezes quem fez isso!
E começou a esmurrar a superfície até ssuas mãos sangrarem, até sentir seus ossos ameaçarem se partir. Esmurrou com ódio, com pesar. Não conseguira salvar a bela jovem… e ela o chamara de herói!
Que droga de herói era ele que não conseguira salvar a vida daquela que contava única e exclusivamente com ele?
Mas não teve tempo de terminar de se recriminar por sua falha. Um som atrás dele o chamou outra vez à realidade e antes que ele visse a origem do som já sabia o que era: seu “amigo” de metal havia conseguido se desvencilhar das inúmeras toneladas de pedra que estavam esmagando-o e agora estava furioso e pronto para reclamar de volta a espada que soltara quando fora atingido pelo edifício em queda.
 – E mais essa agora… – resmungou Snake religando sua espada – Não tenho mais minha agilidade mágica mas o que eu tenho nas mãoss deve ser mais que suficiente para fatiá-lo inteiro!
Mal disse isso enquanto se virava para encarar seu adversário e teve de se jogar no chão porque outra vez a coisa usara suas malditas flechas de luz contra ele.
Foi um movimento irracional de pura autopreservação. Automático e impulsivo. Snake só se deu conta do que aconteceu de fato quando sentiu um monte de estilhaços de alguma coisa transparente caindo sobre ele e por todo lugar como uma chuva de diamantes.
Ele não quis olhar para trás. Sabia o que havia acontecido. A coisa atingira o bloco onde a garota estava e o desintegrara, reduzindo-o a cacos. Nada sobreviveria àquilo. E a raiva subiu-lhe à cabeça com um som de tambores em seus tímpanos, e sua vista escureceu.
Ele via apenas os olhos vermelhos da coisa diante dele. Mais nada. Sentia a espada de luz em sua mão e só. Não ouvia nada, não via nada. Era ele e a coisa, o mundo resumia-se a isso. Não conseguia pensar em mais nada além de usar sua nova arma e desmontar seu inimigo até o último pedaço de lata para descarregar todo o ódio que aqueles últimos instantes lhe fizeram sentir.
E golpeou uma vez, golpeou duas vezes e três vezes. Sentia o impacto da lâmina em algo sólido, via alguns clarões mas não ouvia nada. Seu cérebro era silêncio e escuridão, raiva cega e desejo de destruir a coisa.
“Se tudo mais falhar, vingue-se.”
Eram as palavras de um velho eremita que conhecera há alguns anos em suas andanças, um sujeito que avaliava peças antigas e tinha vasto conhecimento das relíquias do passado de Thanisya, alguém com quem ele gostara de dividir seu tempo quando passou por sua cabana no alto de uma colina de frente para o oceano. E agora ele entendia o que significava aquela frase. Falhara em salvar a bela jovem, falhara em ser o herói e agora ela nem sequer existia mais. Só lhe restava vingar-se.
Golpeava e golpeava sem cessar. Não conseguia ver em que estava realmente acertando, seus braços moviam-se velozmente com a fúria de cem guerreiros, e sua mente continuava apenas silêncio, dor, raiva e vingança…
E então ele sentiu.
Primeiro um impacto duro e seco no peito e depois o chão desapareceu de sob seus pés. E depois mais nada.