CAPÍTULO 3, parte 1:SALVO

A dor fez com que Snake recobrasse o senso de realidade e seus sentidos, agora entorpecidos pelo brutal impacto que o lançara para o alto pouco a pouco começavam a clarear. Tudo parecia mover-se em câmera lenta a medida que ele subia e subia no ar nebuloso. Com os olhos nublados pôde testemunhar a vista perturbadoramente bela da cidade em ruínas deslizando para baixo. Trinta metros, cinquenta metros, cem metros… Já havia ultrapassado a linha dos mais altos edifícios e continuava a subir.
Que força seria tamanha para lançá-lo tão alto? Nunca fora tão duramente golpeado em toda a sua vida, nunca sentira tanta dor nem tanta raiva ao mesmo tempo.
A coisa havia desintegrado o sólido invólucro que aprisionava a jovem de cabelos azuis. Ela não estava mais lá. E ele sabia que se o impacto que o jogara aos ares não o matara certamente a queda o faria.
A primeira camada de nuvens sobre a cidade foi ultrapassada e ele via mais nuvens acima dele. As estrelas começavam a aparecer, era o início da noite. Não lembrava nem conseguia medir naquelas circunstâncias por quanto tempo atacara e atacara seu inimigo enquanto estava cego pelo ódio. Sabia apenas que estava ficando escuro.
Subia cada vez mais devagar agora. Sentia a velocidade pelo ar que de um vento em seus ouvidos reduzia-se pouco a pouco a uma brisa até parar completamente, envolvendo-o em um instante ínfimo de silêncio no qual a realização de que dentro de pouco tempo se espatifaria lá embaixo lhe perpassou a mente.
– Então é assim que termina? – indagou ele – Sem honra, sem glória, sem nada? Eu esperava por um fim mais… mais…
As palavras lhe faltaram. Esperou que começasse a cair, mas não sentiu o ar novamente acelerar em seus ouvidos.
Sentiu duas mãos firmes segurarem-no.
– Mas quem? O quê?…
– Cale a boca, Snake! – era a mesma voz, a mesmíssima voz, mas agora não a ouvia em sua mente, tinha certeza que estava ouvindo com seus ouvidos – Eu não iria deixar que meu salvador morresse de um jeito tão idiota, não é mesmo?
– Você? – ele disse, tentando virar o rosto para ver quem o estava segurando – Mas eu achei que…
– Que quando aquela coisa disparou seu raio me fez em pedaços? – a garota disse, rindo – Na verdade, graças ao seu trabalho enfraquecendo a estrutura que me prendia, o raio dele foi suficiente para partir minha prisão e me libertar.
– E por que você não respondeu quando eu chamei por você mentalmente? – Snake perguntou.
– Porque eu estava distraída demais vendo você manejar aquela espada de luz como um verdadeiro mestre. Não queria estragar seu momento.
– Você ficou olhando?
– E quem não olharia? – ela disse – Há 500.000 anos, na época da Grande Guerra, vi muita gente tentando atacar aquelas coisas e nem sequer arranhá-las. Você por pouco não o partiu ao meio!
– Eu não estava vendo o que eu fazia. Eu achei que ele havia te matado, estava cego de ódio.
– Por isso eu não me manifestei. – disse ela – Foi o ódio, a raiva em você, que manteve seu corpo inteiro quando a coisa, num último esforço de se ver livre de quem a estava destruindo, deu-lhe um soco e o jogou para longe.
Snake sentiu-se feliz. Olhou para baixo. Via o grande espaço vazio onde a batalha há pouco se dera, via o resto da cidade inundada de nebiina, o mar ao redor e as estrelas no céu. A pequena lua que era pouco mais que uma estrela brilhando lá no horizonte, só agora percebia como era bela.
– Você não vai querer descer lá e terminar o serviço? – indagou a garota – Ele provavelmente recuperou sua espada e sei pelo que vi em sua mente que você não iria querer sair daqui de mãos abanando.
– Mas eu achei você… – Snake disse – Não acho que foi uma viagem perdida.
– Você não dá tanta importância às pessoas como está tentando demonstrar. Sei que você adoraria exibir aquela espada de luz em seu mundo atrasado e sem graça para ser mais respeitado e para não mais ser tratado como um ladrão ou como um violador de seupulturas, como bem sei que te chamam por aí.
Ela estava certa. Ele não gostaria de voltar machucado e sem nada para justificar o estrago. Precisava recuperar a espada, precisava fazer isso por puro orgulho, não por uma real necessidade. Era algo que seu ego lhe dizia para fazer e que aquela garota sabia bem que ele desejava muito realizar. Mas como fazer isso? Sua mochila não estava mais presa às suas costas, seus pergaminhos mágicos estavam certamente espalhados pela poeira lá embaixo e sua espada antiga estava partida em algum canto. Agora ele era uma pessoa normal e comum e, diante daquele monstro, totalmente indefeso.
Adiantando-se a seus pensamentos a garota disse:
– Eu vou te ajudar. Quinhentos mil anos parada me deixou cheia de vontade de desenferrujar minhas habilidades.
– Eu nem perguntei seu nome… – Snake balbuciou enquanto ela lentamente começava a baixá-lo consigo.
– Teremos tempo para isso depois que terminarmos com aquela coisa. Agora prepare-se porque certamente seremos atacados antes de tocarmos o chão.
Snake não havia reparado – ou melhor, havia, mas aquilo não era tão incomum assim em seu mundo – que a garota era capaz de flutuar no ar sem o mínimo esforço. Seu peso parecia não fazer diferença para ela e ela gentilmente o descia, a uma velocidade não muito grande para parecer uma queda e nem muito pequena para não parecer que estava descendo. Precisava se preparar para enfrentar seu inimigo, o que o assustava um pouco, mas se teria ajuda, talvez fosse divertido arriscar-se mais um pouco.
Além do mais, não era sempre que uma garota bonita dava atenção para ele.
De fato, olhando para trás no tempo, aquela era a primeira vez.

RAMONA01

CAPÍTULO 2: FRACASSO, DOR, ÓDIO E VINGANÇA

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Snake segurou firmemente o cilindro metálico como se fosse o punho de uma espada e com o polegar procurou pelo botão que a voz da garota lhe indicara. Eventualmente encontrou-o e quase desmaiou quando viu um jorro de luz emanar da ponta do artefato e desenhar os contornos do fio de uma formidável arma – que parecia de metal mas era feita de luz, um tanto transparente e luminosa e ainda assim sólida ante o olhar estupefato do caçador de tesouros, que no mesmo instante percebeu que havia posto as mãos em um artefato de valor inestimável, muito melhor que as armas mágicas que eram vendidas mesmo nos mercados mais concorridos de Thanisya.

 – Snake, pare de admirar seu brinquedo e use-o. – a voz da garota soou outra vez, cheia de impaciência – Eu quero sair daqui de uma vez e dar um abraço apertado no herói que me salvou de minha prisão de 500 mil anos!
O corpo do sujeito estremeceu. Era um solitário, não era muito bem visto pelas pessoas – que o confundiam com um tipo de ladrão ou saqueador de tumbas, como já havia sido chamado por alguns – e a menção de ganhar um abraço de uma bela garota lhe soou estranha como estranhos são os presentes que caem do céu estrelado nas noites de sonho dos contos infantis.
 – Certo. Eu nem sequer sei seu nome ainda, mas aí vai! Liberte-se de sua prisão e venha para a luz, bela jovem de cabelos azuis!
 – Que lindo… – a voz dela disse, num tom meigo – Você tem a postura dos heróis dos mitos, dos heróis do meu tempo. Todos nessa época são como você?
 – Não. – ele respondeu num instante – A maioria das pessoas prefere viver vidas cômodas com as bênçãos da magia e nem se dão ao trabalho de sair e enfrentar o mundo. A maioria não aguentaria dez minutos fora dos muros de suas cidades pacatas sem uma tonelada de pergaminhos mágicos e itens encantados para protegê-los.
 – Mas você também os usa… – ela quis argumentar.
 – E eu lá sou idiota de desperdiçar aquilo que é útil? Sou um caçador de tesouros, não um louco suicida!
Dizendo isso, Snake segurou a espada de luz com as duas mãos acima de sua cabeça. Apesar de grande, ela não tinha peso, ele sentia quase como se ela fosse uma extensão de seus braços. Posicionou-se diante do bloco transparente que aprisionava sua nova amiga e gritou a plenos pulmões:
 – Eu vou CONSEGUIR!
E desferiu um golpe com a espada no enorme bloco adamantino. Não sentiu que era importante preservar a integridade da garota, como se algo em sua mente dissesse que fosse o que fosse não iria machucá-la e, portanto, não se deteve. Quando sentiu a quase ausência de peso transformar-se numa explosão de puro poder, empolgou-se e fez mais quatro cortes em ângulos diferentes. Saltou para trás e desligou o botão, retraindo a lâmina de volta à não-existência.
Por um momento absolutamente nada aconteceu.
O sol já se escondia por trás dos edifícios, anunciando o começo da noite. Snake nem se deu conta de quanto tempo se passou enquanto olhava para o bloco semitransparente inalterado diante de seus olhos.
Haveria falhado?
E se aquela arma maravilhosa não pudera libertar a jovem, o que mais poderia?
E o que aconteceria com ela? Não aguentaria mais 100 ou 1000 ou 10.000 anos. Ele sentia a urgência da situação e aquilo pesou sobre ele. O bloco não se alterou.
 – Ei? – ele tentou tocar a mente dela com a mente – Você está bem?
Nada. Só silêncio.
E Snake já não aguentava mais o silêncio. E então ele sentiu a revolta pelo fracasso, a sensação de impotência frente o inevitável. Que demônio construíra aquele caixão de vidro inquebrável? Que força no mundo poderia fazer algo tão resistente que nem mesmo a espada de luz divina que ele havia utilizado foi incapaz de arranhar?
 – Maldito seja! – berrou – Maldito seja mil vezes quem fez isso!
E começou a esmurrar a superfície até ssuas mãos sangrarem, até sentir seus ossos ameaçarem se partir. Esmurrou com ódio, com pesar. Não conseguira salvar a bela jovem… e ela o chamara de herói!
Que droga de herói era ele que não conseguira salvar a vida daquela que contava única e exclusivamente com ele?
Mas não teve tempo de terminar de se recriminar por sua falha. Um som atrás dele o chamou outra vez à realidade e antes que ele visse a origem do som já sabia o que era: seu “amigo” de metal havia conseguido se desvencilhar das inúmeras toneladas de pedra que estavam esmagando-o e agora estava furioso e pronto para reclamar de volta a espada que soltara quando fora atingido pelo edifício em queda.
 – E mais essa agora… – resmungou Snake religando sua espada – Não tenho mais minha agilidade mágica mas o que eu tenho nas mãoss deve ser mais que suficiente para fatiá-lo inteiro!
Mal disse isso enquanto se virava para encarar seu adversário e teve de se jogar no chão porque outra vez a coisa usara suas malditas flechas de luz contra ele.
Foi um movimento irracional de pura autopreservação. Automático e impulsivo. Snake só se deu conta do que aconteceu de fato quando sentiu um monte de estilhaços de alguma coisa transparente caindo sobre ele e por todo lugar como uma chuva de diamantes.
Ele não quis olhar para trás. Sabia o que havia acontecido. A coisa atingira o bloco onde a garota estava e o desintegrara, reduzindo-o a cacos. Nada sobreviveria àquilo. E a raiva subiu-lhe à cabeça com um som de tambores em seus tímpanos, e sua vista escureceu.
Ele via apenas os olhos vermelhos da coisa diante dele. Mais nada. Sentia a espada de luz em sua mão e só. Não ouvia nada, não via nada. Era ele e a coisa, o mundo resumia-se a isso. Não conseguia pensar em mais nada além de usar sua nova arma e desmontar seu inimigo até o último pedaço de lata para descarregar todo o ódio que aqueles últimos instantes lhe fizeram sentir.
E golpeou uma vez, golpeou duas vezes e três vezes. Sentia o impacto da lâmina em algo sólido, via alguns clarões mas não ouvia nada. Seu cérebro era silêncio e escuridão, raiva cega e desejo de destruir a coisa.
“Se tudo mais falhar, vingue-se.”
Eram as palavras de um velho eremita que conhecera há alguns anos em suas andanças, um sujeito que avaliava peças antigas e tinha vasto conhecimento das relíquias do passado de Thanisya, alguém com quem ele gostara de dividir seu tempo quando passou por sua cabana no alto de uma colina de frente para o oceano. E agora ele entendia o que significava aquela frase. Falhara em salvar a bela jovem, falhara em ser o herói e agora ela nem sequer existia mais. Só lhe restava vingar-se.
Golpeava e golpeava sem cessar. Não conseguia ver em que estava realmente acertando, seus braços moviam-se velozmente com a fúria de cem guerreiros, e sua mente continuava apenas silêncio, dor, raiva e vingança…
E então ele sentiu.
Primeiro um impacto duro e seco no peito e depois o chão desapareceu de sob seus pés. E depois mais nada.